Primeiras notícias do dia:

* arrecadação do governo cai 4%, o pior resultado em cinco anos;

* índice de desemprego sobe para 6,7%, o maior registrado no mesmo período.

Enquanto isso, na Câmara, deputados voltam de surpresa ao plenário para votar um projeto que não estava na pauta e aprovam mais benefícios para todos os aposentados e pensionistas, que podem aumentar em R$ 9 bilhões, já este ano, as despesas com a Previdência.

pt PT e PSDB de papéis trocados nas aposentadorias

Como comentei no Jornal da Record News de terça-feira, está em marcha um movimento na Câmara para fazer exatamente o contrário do que o governo pretendia com o pacote fiscal para reequilibrar as contas públicas: a cada votação, fazem o possível para aumentar os gastos, sem permitir aumentos na arrecadação. O buraco aumenta e as contas simplesmente não fecham. Aonde querem chegar?

Nada tenho, é claro, contra um aumento justo dos aposentados, já que sou um deles. O problema é que se o sistema quebrar não vai sobrar nada para ninguém, mas na Câmara não parecem preocupados com isso. Em sua coluna na Folha desta quinta-feira, Vinicius Torres Freire definiu bem o que se passa neste momento de esquizofrenia partidária: "Não há liderança responsável no Congresso, ao contrário. Há maltas incontroláveis de depredadores".

Acrescento: não há mais referências políticas confiáveis nem no governo nem na oposição. Basta ver o que aconteceu na votação da proposta estendendo os benefícios a todos os aposentados na medida provisória que prorroga a política de valorização do mínimo, aprovada por 206 a 179 votos.

De um lado, contrário à proposta que beneficia trabalhadores e aumenta as despesas do governo, ficou o PT, com os votos de 49 dos seus 51 deputados. No extremo oposto, o PSDB  votou unido a favor da medida, assumindo agora o papel de defensor dos aposentados, depois de ter criado o fator previdenciário no governo FHC.

 PT e PSDB de papéis trocados nas aposentadorias

Ou seja, os dois grandes adversários na política nacional inverteram os papéis:  tucanos defendendo os interesses dos trabalhadores, sem dar bola para o equilíbrio fiscal; petistas obrigados a votar contra, em defesa da política econômica neoliberal adotada pelo governo, que até outro dia era a grande bandeira do seu adversário.

Nada mais surpreende neste cenário no qual os partidos cedem lugar a bancadas temáticas de interesses e, acima de tudo, na defesa dos pleitos individuais dos parlamentares no toma-lá-dá-cá institucionalizado neste interminável processo de repartição de cargos e emendas parlamentares comandado pelo vice Michel Temer e o ministro Aloisio Mercadante, com cada um remando para lados diferentes.

Foi o que aconteceu na votação da emenda das aposentadorias, usada pelos descontentes como pretexto para mostrar ao governo sua insatisfação com a demora na distribuição das prebendas prometidas pelo Palácio do Planalto. O sucessivo adiamento da votação do texto básico do projeto sobre a mudança tributária também é resultado desta insatisfação dos nossos insaciáveis parlamentares.

E assim ficamos sem saber se a crise política é consequência da crise econômica ou vice-versa, já que uma vai alimentando a outra. O fato é que a cada dia fica mais difícil enxergar uma luz no fim do túnel. Agora não adianta procurar culpados. Precisamos encontrar saídas.

E vamos que vamos.

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