kotscho Um dia bem feliz com as crianças e os veteranos

Pode parecer até estranho alguém escrever um texto com este título hoje em dia. Já vou explicar. Sem nenhuma vontade de comentar todas estas notícias enguiçadas sobre Lava-Jato, Grécia, PMDB, ajuste fiscal, votações na Câmara, ciclovias, crises e desgraças em geral, peço licença aos caros leitores para falar de duas coisas boas que aconteceram comigo na quinta feira (por isso, não tive tempo de atualizar este Balaio).

De manhã, fui dar uma palestra sobre a ditadura militar. Seria apenas mais uma das muitas que já fiz na vida, não fosse a plateia absolutamente inédita para mim: 180 crianças na faixa de 11 a 12 anos, alunos da sexta série do ensino fundamental do Colégio Santa Cruz.

O que e como contar para eles o acontecido nesta página trágica da nossa história? Pois acreditem: durante duas horas, esta moçada permaneceu em silêncio, prestando muita atenção, anotando tudo e fazendo perguntas absolutamente procedentes num nível melhor do que o de muitas faculdades por onde tenho passado.

Ao lado do publicitário Antonio Prado Júnior, o Paeco, grande craque das pesquisas, fui ficando cada vez mais surpreso com o que via e ouvia naquele teatro do colégio, mas nada aconteceu por milagre ou acaso.  Antes do encontro, os alunos haviam assistido ao filme O ano em que meus pais saíram de férias, do Cao Hamburger, que se passa em 1970, ouvido seus pais e avôs, e lido textos indicados por seus dedicados professores, Joana, Manoela e Caco, os responsáveis pelo Projeto Memória.

Por isso, já sabiam muito mais sobre o assunto do que eu poderia imaginar, e a conversa fluiu, renovando minhas esperanças num futuro melhor para o nosso país. Ninguém pode desanimar quando vê o esforço que estas crianças fizeram para aproveitar bem o último dia de aula antes das férias de julho.

Paeco, que sofreu na pele as violências praticadas por militares e civis nos centros de tortura e nos presídios contra dissidentes do regime militar (não foi o meu caso), fez um relato pungente sobre o que acontece quando a gente perde os direitos e a liberdade.

Na plateia, assistindo a tudo, orgulhoso, estava o padre José de Almeida Prado, que foi meu professor de Português numa das primeiras turmas do Santa Cruz, no final da década de 50 do século passado, e continua firme no batente, animando a moçada, já perto dos 90 anos.  Minhas filhas também estudaram lá e hoje estão no colégio três netos _ a mais velha, Laurinha, de 12 anos, é dessa turma. Foi ali que me formei cidadão e aprendi o que sei da vida.

À tarde, mais emoções. Fui escalado pelos colegas da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) para fazer o discurso em homenagem aos 50 anos de jornalismo de Clóvis Rossi, meu velho amigo, um grande mestre da profissão, com quem trabalhei em muitas redações ao longo das nossas já longevas carreiras.

No auditório lotado da Universidade Anhembi Morumbi, estavam dezenas dos mais importantes e respeitados profissionais do nosso ofício, mais lembrando um reencontro de veteranos de guerra. Fiquei olhando para eles e pensando: como podemos, com jornalistas tão bons, produzir atualmente uma imprensa tão mesquinha, que às vezes me dá até vergonha?

E vida que segue.

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