Até meus amigos mais politizados não aguentam mais ouvir falar em crise. Nem eu. Nos últimos dias, notei que estão evitando tratar de política e voltaram a falar de futebol, embora neste campo também não possamos esperar nenhuma maravilha tão cedo. Pelo menos, é um jeito de mudar de assunto para não estragar os papos de fim de tarde no boteco da esquina.

Um tema que provocou muita polêmica esta semana é tão antigo quanto o futebol: técnico pode ganhar jogo? Depende do técnico. Se for o Tite, do Corinthians, o Marcelo Oliveira, do Palmeiras, ou o Dorival Júnior, do Santos, a minha resposta é que pode, sim.

Tite é, de longe, o melhor técnico do futebol brasileiro, e já faz algum tempo. Deveria ter sido chamado para o lugar de Felipão logo após o vexame da Copa no Brasil. Preparou-se para isso, foi estudar nos centros mais desenvolvidos do mundo, voltou mais atualizado e com novas ideias, mas a CBF decidiu insistir com o Dunga,que nunca foi técnico na vida, para deixar tudo como está e não atrapalhar os negócios de Marco Polo e Cia. Ilimitada.

Mesmo perdendo alguns dos seus principais jogadores, tendo que remontar a equipe em pleno campeonato, Tite conseguiu manter o espírito do futebol compacto e continuar competitivo como no ano passado. Não à toa, o Corinthians virou o turno na liderança e é favorito para a conquista do título.

Marcelo e Dorival assumiram o comando de Palmeiras e Santos com o Brasileirão correndo, os dois times muito mal colocados na tabela, rondando a zona de rebaixamento e apresentando um futebol indigente para suas desanimadas torcidas. Em poucas semanas, praticamente com os mesmos elencos e promovendo juvenis, remontaram os times, definiram o esquema tático, encontram um padrão de jogo e devolveram a confiança às torcidas.

Dá gosto de ver estes três times jogando, independentemente dos resultados. Têm tudo para chegar juntos no G4 ao final da disputa, coisa que não acontece com o futebol paulista faz muito tempo.

É exatamente o contrário do que se passa com Vanderlei Luxemburgo, no Cruzeiro, e Juan Carlos Osório, no São Paulo, para provar que, assim como podem ganhar, técnicos também podem perder jogos e derrubar suas equipes.

O meu São Paulo, nas mãos do interino Milton Cruz, após a demissão de Murici, era vice-líder do campeonato quando a sua genial diretoria resolveu buscar Osório, um técnico cheio de diplomas e xavecos, no interior da Colômbia. Pois o tricolor só foi caindo na tabela e hoje ninguém sabe qual é o time titular, o esquema de jogo, o que o técnico quer fazer na próxima partida. Acho que nem ele.  A cada jogo, o técnico muda tudo. Não repetiu a escalação nenhuma vez até agora. Na mesma partida, pode colocar três laterais esquerdos em campo e usar três esquemas diferentes.

Depois de conquistar o bicampeonato brasileiro, o Cruzeiro promoveu o desmanche do time e perdeu seus principais jogadores, mas resolveu demitir o vitorioso Marcelo de Oliveira ao ser eliminado da Libertadores, como se ele fosse o culpado. Sorte do Palmeiras, pois o Cruzeiro trouxe de volta o milongueiro Luxemburgo e os dois clubes inverteram os papéis na tabela. Enquanto o Palmeiras luta para entrar no G4, o Cruzeiro ronda a zona de rebaixamento.

Em defesa de Osório, pode-se dizer que foi enganado pela diretoria do clube que promoveu uma liquidação do elenco após a sua chegada, mas ele também não ajuda. Depois de colocar o lateral esquerdo Carlinhos na ponta direita e zagueiro de área improvisado como centro-avante, só falta escalar Rogério Ceni na ponta esquerda e Alexandre Pato de lateral direito. Ou é um gênio que o mundo não conhecia, ou apenas mais um desses professores pardais que surgem de tempos em tempos querendo reinventar a bola.

No futebol, como na vida, tudo depende das pessoas. Com Tite, Marcelo e Dorival, destaques desta nova geração de técnicos que não inventam nada, mas sabem montar equipes e se fazer respeitados por jogadores e pelas torcidas, podemos ter esperanças de que o futebol brasileiro reconquiste o antigo prestígio dos pentacampeões mundiais.

Em tempo: esqueci de falar do Eduardo Batista, jovem técnico do Sport do Recife, que também vem fazendo uma belíssima campanha neste Brasileirão. É uma prova de que não se precisa gastar rios de dinheiro para montar elencos milionários. Basta saber contratar direito quem vai comandar o time e botar fé no taco de quem está começando.

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