limabarreto Como era nossa República quase um século atrás?

O escritor Lima Barreto

Faz quase um século que o genial escritor carioca Lima Barreto publicou a crônica "A Política Republicana", na revista A.B.C., mas parece que foi escrita na semana passada, antes do feriadão, tal é a sua atualidade.

Como o mundo é pequeno e cheio de coincidências (ou não), quem me enviou este premonitório texto publicado no dia 19 de outubro de 1918, ou seja, no ano 29 da nossa então jovem República, foi um dos príncipes-herdeiros da Família Real, D. João de Orleans e Bragança, o D. Joãozinho, que conheci este ano na Flip, a maior feira literária do país, em Parati.

Por outra coincidência (ou não), Lima Barreto será o escritor homenageado na Flip do próximo ano.

Noventa e oito anos depois, vale a pena reproduzir o texto que pode ser encontrado na coletânea "Toda Crônica", organizada por Beatriz Resende e Rachel Valença, e editada pela Agir, em 2004. Está na página 392.

Leiam e vejam se não tenho razão nesta breve introdução à minha coluna de 15 de novembro de 2016. Passo a palavra a Lima Barreto, um sábio.

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Não gosto, nem trato de política. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. Eu a encaro, como todo o povo a vê, isto é, um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça dos humildes.

Nunca quereria tratar de semelhante assunto, mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito, a fim de que não pareça que há medo em dar, sobre a questão, qualquer opinião.

No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse.

Não é mentira isto, tanto assim que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu. 

O que havia neles não era ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome; e, por isso mesmo, pouco se incomodariam com os proventos da "indústria política". 

A República, porém, trazendo a tona dos poderes públicos a borra do Brasil, transformou completamente os novos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer (...). 

A República no Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a "verba secreta", os reservados deste ou daquele ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. 

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Qualquer semelhança com o noticiário político dos últimos muitos dias não é mera coincidência.