Ex aliados, Cabral e Garotinho juntos na cadeia

Sérgio Cabral sendo conduzido a Bangu

No tempo em que eram aliados, Garotinho ajudou Sergio Cabral a se eleger senador e depois governador do Rio. Foi ele quem indicou Pezão, hoje governador, para ser vice de Cabral. Romperam em 2006.

Desde 1999, quando Garotinho foi eleito, os dois ex-governadores presos em 24 horas integram o grupo que comanda a política no Rio de Janeiro, do qual também fizeram parte Jorge Picciani, atual presidente da Assembléia Legislativa, e Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, que está preso em Curitiba. São ou foram todos do PMDB, o partido que hoje governa o Brasil.

Picciani também coleciona problemas na Justiça, mas dos quatro é o único que ainda está solto. Garotinho e Cabral agora estão juntos no conjunto penitenciário de Bangu. Por ironia, quem inaugurou o presídio foi Sérgio Cabral, em 2008, nos seus faustosos tempos de governador.

Os dois políticos populistas, de origem modesta, que passaram por vários partidos, agora estão bem de vida, mas a farra acabou, e o povo comemorou nas ruas, na quinta-feira, soltando fogos e aplaudindo quando um comboio da Polícia Federal atravessou a cidade para levar Cabral à cadeia.

Juntos, eles quebraram o Rio de Janeiro, que está em pé de guerra desde a semana passada. Sem ter como pagar as contas e os salários do funcionalismo, o governador Pezão, que tinha passado sete meses afastado do cargo para tratamento de um grave problema de saúde, anunciou um radical pacote de corte de gastos, enviado para a Assembléia Legislativa, logo sitiada e invadida por servidores públicos rebelados.

Em seus tempos de apogeu, Garotinho lançou-se candidato a presidente da República (ficou em terceiro lugar, com 15% dos votos) e Sergio Cabral chegou a ser cogitado pelo PMDB carioca para ser vice na chapa de Dilma Rousseff, em 2014, no lugar de Michel Temer, que agora está no lugar dela no Palácio do Planalto.

Pelo que foi apurado até agora, a "turma do guardanapo" daquela célebre festa em Paris comandada por Cabral e denunciada por Garotinho, levou R$ 224 milhões em propinas de empreiteiras pagas com dinheiro desviado de obras públicas. Para cobrir o rombo, Pezão cortou até a verba dos restaurantes populares, que oferecia refeições a R$ 2,00.

Só com os R$ 800 mil do anel comprado a pedido de Cabral para a ex-primeira dama por um dos empreiteiros envolvidos na farra, Fernando Cavendish, daria para fornecer, portanto, 400 mil refeições à população mais pobre da cidade. As propinas foram batizadas de "taxa de oxigênio" _ oxigênio que está em falta nos hospitais cariocas por falta de pagamento.

Lancha de R$ 5 milhões, helicóptero particular, obras de arte, vestidos de luxo, jóias a granel, a turma se lambuzou na grana roubada ao longo dos últimos anos, com o governador Sergio Cabral recebendo mesadas de até R$ 500 mil das empreiteiras, segundo as denúncias do Ministério Público Federal, que embasaram o pedido de prisão.

Perto do sofisticado esquema de corrupção montado pela turma de Cabral, que tinha até operador exclusivo para recolher as propinas e empresas fajutas para esquentar o dinheiro, as acusações da Justiça Eleitoral contra Garotinho por distribuir na última campanha cheques da prefeitura de Campos, administrada por sua mulher, Rosinha, também ex-governadora, parecem até coisa de amador.

E vamos que vamos.