Calero sai atirando: só faltava uma crise ministerial

Título da coluna na quinta-feira, 17 de novembro, após um dia de cão na véspera: "País vive clima de fim de feira: o que falta ainda?".

A resposta à minha pergunta veio neste sábado, antes da semana acabar: está aberta mais uma crise ministerial de desfecho imprevisível.

Marcelo Calero, da Cultura, não foi somente o quinto ministro a cair em seis meses do novo governo.

Calero saiu atirando em Geddel Vieira Lima, articulador político do governo, um dos homens de confiança do presidente Michel Temer no Palácio do Planalto.

Ao explicar os verdadeiros motivos do seu pedido de demissão, Marcelo Calero acusou Geddel de pressioná-lo, em cinco diferentes ocasiões, a liberar a construção de um prédio de 30 andares no centro histórico de Salvador, onde o ministro tinha comprado um apartamento. O projeto fora vetado em parecer técnico do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão subordinado ao seu ministério.

Em entrevista exclusiva aos repórteres Natuza Nery e Paulo Gama, da Folha, Calero conta como foi:

"No dia 28 de outubro, uma sexta-feira, por volta de 20h30, recebo uma ligação do ministro Geddel, dizendo que o Iphan estava demorando muito a homologar a decisão do Iphan da Bahia. Ele pede minha interferência para que isso acontecesse, não só por conta da segurança jurídica, mas também porque ele tem um apartamento naquele empreendimento. Ele disse: `"E aí, como é que eu fico nessa história?´".

Mais adiante, o agora ex-ministro lembra qual foi sua reação: "Você fica atônito. Veio à minha cabeça: `Gente, esse cara é louco, pode estar grampeado, e vai me envolver em rolo, pelo amor de Deus´".

Calero relata que começou a sofrer pressões também de outras áreas do governo para aprovar o projeto imobiliário de Salvador, até que, no dia 31 de outubro, os dois se encontraram novamente, e o ministro de Governo foi direto ao assunto: "Já me disseram que o Iphan vai determinar a diminuição dos andares. E eu, que comprei um andar alto, como é que eu fico? E as famílias que compraram aqueles imóveis? Eu comprei com a maior dificuldade com a minha mulher".

Alguns dias depois, o diplomata de carreira Marcelo Calero, ex-secretário de Cultura do município do Rio de Janeiro, viu que não tinha mais condições de permanecer no governo:

"Entendi que tinha contrariado de maneira muito contundente um interesse máximo de um dos homens fortes do governo e que ninguém iria me apoiar. Vi que minha presença não teria viabilidade. Jamais compactuaria com aquele compadrio".

Nesta sexta-feira, por telefone, Marcelo Calero comunicou ao presidente Michel Temer que sua decisão de pedir demissão era irrevogável.

"Estou fora da lógica desses caras, não sou político profissional. Não tenho rabo preso. Não estou aqui para fazer maracutaia. Nós precisamos ter a coragem de dizer: `Daqui eu não passo´", desabafou aos repórteres, enquanto Roberto Freire, presidente do PPS, era nomeado novo ministro da Cultura.

Vida que segue.