Governo ouve voz das ruas, mas pode ser tarde

Renan, Temer e Maia na entrevista coletiva neste domingo (27) (Foto: Beto Barata/PR)

Uma boa e uma má notícia para começar a semana.

A boa é que o governo e o Congresso finalmente acordaram para ouvir "a voz das ruas", como disse o presidente Michel Temer ao anunciar o fim da anistia do caixa dois.

A má é que talvez tenham acordado tarde demais.

"Temos feito, o Executivo e o Legislativo, um ajustamento institucional com vistas a, se possível, impedir a tramitação de qualquer proposta que vise a chamada anistia. Acordamos que não há a menor condição de levar adiante esta proposta", anunciou Temer, ao lado de Rodrigo Maia e Renan Calheiros, os três visivelmente constrangidos na improvisada entrevista coletiva montada num cenário acanhado ao meio dia de domingo.

O resultado não foi positivo pelas repercussões que li até agora.

Além de demorar demais para sair das cordas, às voltas com conflitos internos no Palácio do Planalto, Temer começa a ser contestado não só nas ruas e nas redes sociais, mas pelos próprios setores que o levaram ao governo, do PSDB à mídia, passando por lideranças do Judiciário e do empresariado.

O que o governo mais temia, a volta dos protestos nas ruas, aconteceu já no domingo, poucas horas após a entrevista coletiva no Palácio do Planalto.

Em São Paulo, manifestação organizada por movimentos sociais e estudantis contra a PEC dos Gastos e a anistia do caixa dois levou 40 mil pessoas à avenida Paulista, segundo a Frente Povo sem Medo (a PM não fez estimativa do número de participantes).

Até os movimentos que se organizaram pelo impeachment de Dilma Rousseff, que tinham sumido das ruas e das varandas, estão marcando atos contra a corrupção e em defesa da Lava Jato para o próximo domingo em todo o país.

O fato concreto é que, diante da sua inação para enfrentar os problemas que se avolumam a cada dia, o governo vem perdendo rapidamente a credibilidade _ e é neste clima que começa mais uma semana decisiva para reverter o quadro.

Na terça-feira, além da votação no plenário da Câmara do pacote de medidas contra a corrupção, em que tentaram na semana passada enfiar o jabuti da anistia do caixa dois e crimes conexos, o Senado vai votar em primeiro turno a PEC do ajuste fiscal, principal projeto do governo na área econômica.

Para tornar tudo mais difícil, partidos de oposição e movimentos sociais já se movimentam para entrar nesta segunda-feira com pedidos de impeachment por conta do envolvimento do presidente Michel Temer no caso Geddel-Calero, que está longe de acabar, com as investigações da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República.

E não podemos nos esquecer: está prevista para esta semana a assinatura dos acordos de delação premiada de executivos da Odebrecht, que vem provocando verdadeiro pânico nas principais lideranças dos partidos do governo e da oposição.

Vida que segue.