BB Michel Temer e Geraldo Alckmin em Sao Paulo 01811272016 850x567 Para Temer, crise política é só um fatozinho

"Como não temos instituições muito sólidas, qualquer fatozinho, me permitam a expressão, abala as instituições".

O autor da frase acima não é nenhum cientista político pós-verdade, mas o presidente da República, Michel Temer, em discurso feito a empresários, na noite de segunda-feira, num hotel em Brasília.

Formado por experientes políticos profissionais do velho PMDB, o governo parece ainda não ter se dado conta das consequências do imbroglio Geddel-Calero por conta daquele apartamento em Salvador.

Mais grave do que o "fatozinho" em si, foi exatamente a reação do Palácio do Planalto ao considerar muito natural e sem importância a prática de advocacia administrativa em benefício pessoal.

Os cidadãos brasileiros de 2016, como pudemos ver nos comentários indignados que inundaram as redes sociais, já não aceitam esse tipo de prática política baseada no compadrio e no patrimonialismo.

Foi por isso que os atuais e eternos donos do poder foram obrigados a recuar na tentativa de se auto-anistiar pelos crimes de caixa dois e conexos em campanhas eleitorais passadas.

Ao reduzir tudo a um "fatozinho", porém, Temer mostrou que não se muda de um dia para outro uma cultura política que levou o país à maior crise econômica da sua história.

Esta crise ainda está longe de acabar.

Sem encontrar um nome "ficha limpa" para colocar no lugar de Geddel, o presidente resolveu ele mesmo assumir a articulação política do governo numa clara demonstração de falta de quadros disponíveis.

Como só faltam duas semanas para o recesso parlamentar (mais um!) já se fala em deixar a difícil escalação do novo ministro para o ano que vem.

Nesse meio tempo, devem sair as delações da Odebrecht, que podem implodir todo o sistema político.

É isso que deve definir não só o novo secretário de Governo, mas a escolha do presidente da Câmara, outro foco de disputa na conflagrada base aliada.

Vamos saber nesta terça-feira, com as votações do pacote fiscal no Senado e das medidas contra a corrupção na Câmara, quais foram os efeitos das denúncias do ex-ministro Marcelo Caleiro contra a cúpula do governo.

No Senado, onde o governo tem ampla maioria, deve ser aprovada em primeiro turno a PEC do Teto dos Gastos, mas na Câmara ainda reina incerteza sobre o comportamento dos nobres parlamentares que tentaram votar a emenda da anistia na semana passada.

Neste clima de salve-se quem puder, tudo pode acontecer, inclusive nada, mas é difícil que saia alguma coisa boa num parlamento dominado por Renan Calheiros e pelos herdeiros do centrão de Eduardo Cunha.

Muito mais do que de um articulador político, para sairmos desta crise, precisamos de um operador de milagres.

"Perguntar não ofende"

Nos meus tempos de repórter, quando o entrevistado reclamava de alguma pergunta mais apimentada, a gente sempre usava o mesmo argumento:

"Perguntar não ofende".

Foi o que pensei quando vi a decisão do juiz Sergio Moro de vetar 21 das 41 perguntas feitas pela defesa de Eduardo Cunha ao presidente Michel Temer na ação que o ex-deputado responde na Lava Jato.

O que aconteceria se fossem respondidas? Cunha seria condenado ou absolvido?

E vamos que vamos.