Crise política faz de Brasília praça de guerra

Carro pega fogo durante manifestação em Brasília nesta terça (29) (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Aconteceu o que já era de se esperar e o governo tanto temia: a crise política transbordou nesta terça-feira dos plenários e dos gabinetes para as ruas num confronto entre forças de segurança e manifestantes, como há muito tempo não se via em Brasília.

Bombas de todo tipo jogadas pela polícia, prédios públicos invadidos e depredados, carros virados e incendiados, cavalaria avançando sobre manifestantes em desabalada correria, a volta dos vândalos chamados de black blocs, coquetéis molotov lançados por mascarados, o gramadão da Esplanada dos Ministérios transformada em praça de guerra.

Tinha de tudo, estudantes, funcionários públicos, aposentados, índios, sindicatos e movimentos sociais, cerca de 12 mil manifestantes, segundo a Polícia Legislativa, que protestavam contra medidas do governo, do ajuste fiscal à reforma do ensino médio.

Quebrou o pau dentro e fora do Congresso Nacional, onde os parlamentares se preparavam para tomar importantes decisões, há tempos aguardadas pelo país, mas o resto da população parecia pouco interessada nas votações que entraram pela noite.

Na Câmara, deputados a favor e contra o governo chamavam uns aos outros de "bandidos", responsabilizando-se mutuamente pela violência do lado de fora.

Com a comoção provocada pela tragédia da Chapecoense que abalou a todos nós e o noticiário dominado pela queda do avião na Colômbia que deixou 71 mortos, Brasília só foi lembrada quando estourou o confronto em frente ao Congresso Nacional.

Na calada da noite, já de madrugada, quando ficamos sabendo das votações dos pacotes do Teto de Gastos, no Senado, e das medidas contra a corrupção, na Câmara, ambas aprovadas, poucos estavam interessados no resultado.

Mais uma vez, o Brasil real e o Brasil oficial se distanciavam no imenso fosso existente entre eles, como se vivêssemos em dois países diferentes e estranhos entre si.

A anistia ao caixa dois ficou de fora do pacote anti-corrupção, mas os deputados desfiguraram completamente a proposta apresentada pelo Ministério Público Federal (das 10 medidas só aprovaram duas) e aproveitaram para enfiar uma emenda para responsabilizar juízes e promotores por crimes de abuso de autoridade, uma clara retaliação à Lava Jato.

As medidas do ajuste fiscal, principal projeto econômico do governo, foram aprovadas em primeiro turno por ampla maioria no Senado, como já havia acontecido na Câmara.

A única notícia do dia boa para o governo, no entanto, ficou perdida no meio do noticiário da tragédia na Colômbia e do confronto em Brasília.

O cenário político está tão beligerante que a crise econômica, a cada dia mais preocupante, com índices negativos e sem perspectivas de melhora a curto prazo, ficou em segundo plano.

Só lembrando que para o próximo domingo estão marcadas novas manifestações contra a corrupção, desta vez mobilizadas pelos movimentos que lideraram a campanha do impeachment. Em apenas seis meses, o Brasil virou de ponta cabeça.

Qualquer desatenção pode ser a gota d´água, como cantava o velho Chico Buarque..

E vamos que vamos.