Duas crises _ De um sábio que viveu a recessão da crise econômica da ditadura e padece a atual.

No tempo dos generais a gente ainda podia cantar: `Amanhã Vai Ser Outro Dia´. Hoje, nem isso". 

(Elio Gaspari, na Folha, em 4 de dezembro de 2016)

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Numa nota de apenas seis linhas, o colunista resume tão bem o estado de espírito dos brasileiros que desconfio ser o sábio ele próprio.

Roubaram-nos até o amanhã, um fiapo que seja de esperança.

Chegamos ao final de mais uma semana, o ano já acabando, literalmente num beco sem saída, no mato sem cachorro, no breu.

Nas muitas outras crises que vivi em mais de meio século de jornalismo, havia sempre a esperança de que amanhã, mudando o governo ou o regime, a vida poderia melhorar.

E hoje? Para onde quer que você olhe, não há nenhuma indicação de que "amanhã vai ser outro dia", como cantava Chico no tempo dos militares.

Não temos mais lideranças, partidos, projetos, qualquer perspectiva de reconstrução de um país em frangalhos.

Trinta anos após a redemocratização, corremos o risco de desmoralizar a democracia.

Neste domingo, os mesmos movimentos que até seis meses atrás marcharam para pedir o impeachment voltam às ruas para novamente protestar contra a corrupção.

Muito bem, e daí? Aonde querem chegar? O que pretendem colocar no lugar?

Em 1984, já nos estertores do regime militar, os brasileiros se uniram cheios de fé e esperança para pedir a volta das eleições diretas para presidente.

Várias eleições diretas e dois impeachments depois, o que temos no horizonte?

"É o que temos", diz o ex-presidente FHC ao defender a permanência da pinguela de Michel Temer até 2018.

Como solução, o velho professor recomenda que precisamos voltar a conversar em vez de ficar brigando. Beleza, mas conversar quem com quem, quem são os interlocutores, as referências?

Difícil é descobrir quem sobrará pós-Odebrecht para disputar as próximas eleições, se é que sobreviveremos até lá.

O perigo é aparecer algum salvador da pátria prometendo acabar com a corrupção e elegermos um novo Collor. Candidatos ao papel não faltam e outros vão aparecer.

Parece que estão todos brincando com fogo sem se dar conta da gravidade do momento que vivemos e, ainda por cima, não temos um novo Chico Buarque para nos fazer voltar a acreditar no amanhã.

Será que só somos capazes de nos unir na tragédia? O que falta acontecer ainda?

Fiz tantas perguntas neste texto que gostaria de ter uma resposta de vocês, qualquer uma.

Vida que segue.