Já no desespero, Renan Calheiros peita o Judiciário

O senador Renan Calheiros

Principal alvo dos protestos de domingo contra a corrupção e em defesa da Lava Jato de Sergio Moro, o presidente do Senado, Renan Calheiros, não desistiu da sua cruzada contra o Judiciário. Ao contrário, resolveu partir para o confronto.

Antes de começar mais uma semana que promete ser agitada em Brasília pelas aguardadas delações da Odebrecht, ele já decidiu sobre dois pontos da pauta do Senado com todos os ingredientes para provocar um novo enfrentamento entre os poderes Legislativo e Judiciário:

* Na terça-feira, colocará em discussão e tentará votar o projeto de sua autoria que torna crime o abuso de autoridade de magistrados e membros do Ministério Público.

* Já avisou as lideranças partidárias que vai jogar para as calendas a discussão do projeto que prevê o fim do foro privilegiado defendido por ministros do Supremo.

Tudo o que Renan mais teme agora, depois de se tornar réu pela primeira vez no STF, é seguir o mesmo caminho de Eduardo Cunha, que teve sua prisão decretada por Sergio Moro poucos dias depois de perder o mandato de deputado e o foro privilegiado.

No desespero, o presidente do Senado, que tem mais 11 processos pendentes no STF, ao invés de se defender das acusações, resolveu peitar os juízes que podem lhe dar o mesmo destino de Cunha. Recusou os apelos que lhe foram feitos até pelo presidente Michel Temer para evitar uma crise institucional.

Em entrevista exclusiva publicada nesta segunda-feira no jornal O Globo, Temer disse ao repórter Jorge Bastos Moreno que no domingo passado transmitiu a Renan o "apelo institucional" feito pela presidente do STF, Carmem Lúcia, para não votar este ano o projeto sobre o abuso de autoridade:

"O senador Renan Calheiros e alguns parlamentares, aos quais transmiti esse apelo, apresentaram fortes argumentos para que a medida não fosse retirada da pauta. Eu tinha dito a eles que endossava totalmente as preocupações da presidente Carmen Lúcia. Mas eles, em função de seus argumentos, mantiveram-se irredutíveis".

Quais seriam estes argumentos? Segundo Temer, durante a conversa por telefone, a presidente do STF lhe disse: "Olha, temos que salvar o país evitando essas crises".

Na quarta-feira passada, em outra atitude movida pelo desespero, Renan já tinha tentado votar no Senado, em regime de urgência, o pacote aprovado durante a madrugada na Câmara que prevê punições para juízes e promotores.

Acabou não dando certo a manobra combinada com Rodrigo Maia, presidente da Câmara, mas ele não desistiu de desafiar a Justiça na tentativa de salvar a própria pele e a dos outros parlamentares ameaçados pela Lava Jato.

Renan Calheiros não deve ter visto pela televisão as milhares de pessoas voltando às ruas de todo o país no fim de semana para protestar contra a corrupção dos políticos dos quais ele se tornou um símbolo.

A impressão que me dá é que eles estão mesmo querendo colocar fogo no circo para ver se escapam no meio da confusão.

E o Brasil da recessão e do desemprego que se dane.