Meu nome é Renan, mas pode me chamar de Justiça

Renan Calheiros em entrevista após ser mantido no cargo

Na enxurrada de delações da Odebrecht reveladas na sexta-feira, que alvejaram o presidente Michel Temer e toda a cúpula do governo, entre outros, alguns detalhes me chamaram a atenção pelo simbolismo de uma época em que todas as máscaras estão caindo e ninguém sabe onde vamos parar.

Talvez o mais emblemático dos "codinomes" que surgiram na extensa relação de pais da República seja o de "Justiça", atribuído por suprema ironia ao senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional.

Na semana em que o dono de 12 processos no Supremo Tribunal Federal foi o epicentro da mais grave crise institucional da nossa história recente, fiquei pensando na motivação da empreiteira para ligar o codinome à pessoa.

Lembrei-me que, em tempos idos, Renan Calheiros foi ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso, o grande líder do PSDB, partido que logo após a eleição presidencial de 2014 pediu a cassação da chapa Dilma-Temer, exatamente pela utilização de dinheiro sujo na campanha.

Quando a crise atingiu seu grau máximo de ebulição, na quarta-feira, o grande pacto entre os três poderes, que criou uma gambiarra constitucional para salvar Renan no cargo de presidente do Senado, deixou os brasileiros indignados e os políticos e o governo puderam respirar aliviados.

Por outra ironia suprema, com Renan posando de grande vencedor da batalha de Brasília que não houve,  comemorou-se  na quinta-feira o Dia da Justiça.

Na extensa lista de delações feitas pelo executivo Cláudio Mello Filho, ex-vice presidente de Relações Institucionais da empreiteira, sobre os usufrutuários do pacote de propinas distribuídas "de maneira não contabilizada", aparece também o nome de Geddel Vieira Lima, sempre ele, o investidor imobiliário derrubado da Secretaria de Governo no escândalo mais recente.

Segundo Mello, foi Geddel quem o apresentou a Michel Temer, em 2005.

Todos os citados, é claro, negaram qualquer irregularidade. Apareceram até os nomes do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, primeiro na linha sucessória da Presidência da República, e do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o criador do pato do impeachment, que foi contemplado com R$ 6 milhões na campanha ao governo de São Paulo em 2014.

E isso foi só o começo. Basta lembrar que Melo Filho é apenas um dos 77 delatores da Odebrechet.

Vida que segue.