Coragem!, palavra de adeus do amigo D. Paulo

"Coragem!". Esta deve ter sido a última palavra de D. Paulo antes de morrer nesta quinta-feira, aos 95 anos.

Era sempre assim que ele se despedia, sorrindo, olhando nos olhos e segurando nos braços dos amigos .

Chegou a sua hora de partir e quem melhor definiu este momento foi uma amiga comum, a jornalista Virgínia Pinheiro:

"Pior para nós, melhor para ele".

Era nos momentos mais difíceis, quando os generais-presidentes mandavam no Brasil, e ele resistia, que o sorriso de D. Paulo, com suas palavras sempre serenas e firmes, sem subir o tom, encorajava sua tropa de fiéis a não desistir.

Tenho muita dificuldade de escrever sobre os amigos que morrem porque nesta hora todos são santificados e só se escreve sobre suas virtudes.

Não é o caso deste velho companheiro, que se santificou em vida, não só com palavras, mas com gestos e atitudes, que nos deram o rumo quando tudo parecia perdido na longa noite da ditadura.

A vida dele foi tão rica e presente na vida brasileira na segunda metade do século passado que todos os que viveram este tempo já conhecem a sua história.

Não cabe resumi-la no espaço de um blog.

Qualquer coisa que se diga parecerá pequena e insuficiente para dizer quem foi D. Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo.

Apesar da grandeza de sua obra, vou dar apenas um pequeno exemplo da humildade deste frade franciscano que foi um dos últimos grandes líderes da Igreja Católica brasileira.

Depois de ter trabalhado com ele num dos seus grandes projetos, o "Brasil Nunca Mais", primeiro livro-denúncia das torturas no regime militar baseado em documentos oficiais publicado em plena ditadura, D. Paulo me chamou para dar uma opinião sobre a autobiografia que estava terminando de escrever.

Fiquei cheio de dedos para lhe dizer que o livro, carregado de citações de nomes e de agradecimentos, era de difícil leitura, não estava bom para ser publicado.

Percebendo minha saia justa, D. Paulo botou um braço sobre o meu ombro e agradeceu. "Só tenho que lhe dizer muito obrigado. Foi por isso que pedi para você ler porque eu sabia que ia me falar a verdade..."

Dizer sempre a verdade, em qualquer circunstância, foi uma das muitas lições que aprendi com ele.

Autor de dezenas de livros, teve dificuldades para escrever sobre si mesmo. Sugeri-lhe que desse um depoimento a algum escritor ou jornalista, o que também era, e foi o que ele fez.

Tinha, entre outros, como todos nós, um grande defeito: era corintiano. Não vou dizer que era um corintiano doente porque seria redundância.

Para terminar este breve testemunho, só tenho uma coisa a lembrar: com seu trabalho incansável, D. Paulo salvou e melhorou a vida de muita, muita gente.

De uma coisa tenho certeza: transvivenciou hoje um dos poucos brasileiros com lugar garantido no panteão dos grandes homens do século XX.

Valeu por tudo, D. Paulo!

Vida (agora eterna) que segue.