Gilmar já admite: vazamento pode melar Lava Jato

O ministro Gilmar Mendes

"É possível", admitiu candidamente o ministro Gilmar Mendes ao ser perguntado na terça-feira se o vazamento da primeira delação premiada da Odebrecht pode gerar a nulidade dos processos da Lava Jato.

Autonomeado porta-voz das indignadas excelências de alto coturno atingidas pela delação do diretor Cláudio Mello Filho, já confirmada em depoimento do presidente da empreiteira, Marcelo Odebrecht, que também vazou, Gilmar disse que "isso tem que ter consequência" e defendeu que o Supremo Tribunal Federal tome uma posição sobre a colaboração premiada:

"Claro que ela trouxe benefícios, mas vai precisar ser ajustada. Tudo que leva a esse empoderamento leva a abusos".

Será que o falante ministro só descobriu os abusos agora que as delações premiadas atingiram a cúpula do governo e as lideranças dos principais partidos políticos?

Capas de revista e manchetes de jornais com ampla repercussão nos noticiários de rádio e televisão, os vazamentos de delações da Lava Jato começaram praticamente junto com a operação, em março de 2014. Virou rotina.

Durante 33 meses, não passou uma semana sem que novos vazamentos bombásticos atingissem os partidos aliados do governo anterior, principalmente o PT.

Ninguém, a não ser os defensores dos delatados, reclamou. Também nenhum agente público foi punido pelos vazamentos das delações. Só o presidente da empreiteira OAS, Leo Pinheiro, foi mandado de volta para a cadeia quando sua delação vazou na imprensa, e foi anulada. Este precedente foi lembrado pelos defensores dos novos acusados que querem melar as investigações.

Na segunda-feira, o próprio presidente Michel Temer enviou requerimento ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em que chama de "ilegítima" a divulgação por meio de vazamento de investigações criminais e reclamou que a lentidão em procedimentos investigatórios perturba áreas sensíveis do governo.

Para se ter uma ideia desta lentidão, da qual também ninguém reclamou antes, levou nove anos para chegar ao plenário do STF o primeiro processo aberto contra Renan Calheiros, em que o presidente do Senado seria denunciado por peculato e finalmente se tornaria réu, dias atrás.

Nenhum político acusado na Lava Jato, com direito a foro privilegiado, foi julgado e punido pelo STF até hoje. Eduardo Cunha só recebeu ordem de prisão de Sergio Moro depois de ser cassado e perder o privilégio.

Na época, alguns parlamentares chegaram a defender o fim desta excrecência jurídica, mas logo desistiram quando perceberam que boa parte deles poderia ser atingida na mega-delação da Odebrecht.

De fato, por enquanto, são dezenas de processos envolvendo políticos com mandato, ou seja, com o tal do foro privilegiado, que estão parados na Procuradoria Geral da República ou no Supremo Tribunal Federal.

Logo, logo, serão centenas, quando vieram a público, oficialmente, os depoimentos dos 77 delatores da Odebrecht (sem falar nas outras empreiteiras e na possível delação de Eduardo Cunha).

Quanto tempo vai levar para que todos os processos sejam analisados, cheguem ao plenário e sejam julgados pelo STF?

Em último caso, sempre algum ministro supremo pode pedir vistas a perder de vista.

Cenas da vida real: 

nas ruas, o vale-tudo

Era inevitável: com a crescente desmoralização dos três poderes em Brasília, as ruas do Brasil viraram um vale-tudo como vimos nas manifestações violentas em Brasília e São Paulo.

Ninguém respeita mais ninguém, cada um faz o que quer.

Se os que ganham fortunas para zelar pelas leis as desrespeitam, porque o vulgo anônimo haveria de fazê-lo?

Senti isso na pele logo ao botar o pé na calçada na terça-feira para ir ao a trabalho.

Da garagem do vizinho, com moderno portão eletrônico, saíram uma moto e na sequência uma camionete em alta velocidade, como se não existissem calçadas nem pedestres.

Passado o primeiro susto, dei um passo e levei outro.

Os dois ocupantes da camionete avançaram em cima de mim dando risada do coitado que ainda acredita nas leis, pelo menos as do trânsito.

O porteiro do prédio também achou graça.

Voltamos a viver na selva e os idiotas posam de leão. Eles venceram.

Vida que segue, pelo menos por enquanto.

"