Até a trégua de final de ano ficou para 2017

O presidente Michel Temer no momento do anúncio do pacote econômico nesta quinta (15)

A última imagem do ano político deveria ser positiva: o anúncio solene no Palácio do Planalto das dez medidas do mini-pacote econômico para aumentar a produtividade e combater o desemprego.

Com transmissão ao vivo pela televisão, o presidente Michel Temer estava acompanhado dos seus principais ministros e dos presidentes da Câmara e do Senado com o objetivo central de passar confiança e credibilidade ao mercado e aos consumidores para fazer a roda da economia voltar a girar.

As imagens, porém, não combinavam com as palavras. Ao contrário, mostravam seis homens tensos, inseguros, com ar preocupado, a perplexidade do momento estampada em seus semblantes.

Do outro lado da tela, quem acompanhou os discursos deve ter se perguntado, como eu: "No que isso vai melhorar a minha vida? Quando vou poder voltar a investir ou a comprar?".

Na hora de responder às perguntas dos repórteres, até o experiente Henrique Meirelles, chefe da equipe econômica, mostrou-se inseguro ao explicar as medidas anunciadas, sem querer fixar prazos nem metas da pretendida retomada do crescimento.

Na mesma quinta-feira, vários fatos acabaram demonstrando que a questão central do país não se resolverá com mais um pacote econômico sem desatar antes os nós da crise política e jurídica, tendo ao fundo a Operação Lava Jato.

* O presidente Michel Temer foi acusado pela segunda vez nas delações da Odebrecht de ter negociado verba de campanha em troca de favorecimentos à empreiteira.

* O ex-presidente Lula foi denunciado pela quinta vez pela força tarefa da Lava Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

* O presidente do Senado, Renan Calheiros, recusou-se novamente a cumprir uma liminar do STF que determinou a devolução do pacote de medidas anti-corrupção à Câmara.

* O PSB criticou as inciativas econômicas do governo e ameaça deixar a base aliada.

* O PSDB reuniu sua executiva e derrotou por 29 a 2 o presidenciável Geraldo Alckmin, que queria a renovação do comando do partido, prorrogando a permanência no cargo de Aécio Neves, outro pré-candidato, até maio de 2018.

* O Centrão ameaça ir à Justiça para impedir a reeleição de Rodrigo Maia, candidato do governo e do PSDB, à presidência da Câmara.

E por aí vai. Com tanta concorrência, o anúncio das medidas econômicas feito por Michel Temer para criar uma agenda positiva não ganhou o destaque que o governo esperava.

Nas últimas semanas, para evitar novos conflitos, foi tudo sendo adiado para 2017.

A PEC do Teto dos Gastos foi promulgada, mas só valerá para estabelecer limites do orçamento a partir de 2018.

A comissão especial que analisará o projeto da reforma da Previdência enviada pelo governo à Câmara só será instalada em fevereiro do próximo ano.

As delações da Odebrecht, entre outras, estão só no começo, e a Operação Lava Jato continua a todo vapor, sem data para acabar.

Nem a chegada de Papai Noel promete acalmar os ânimos. Diante desse quadro de instabilidade e incertezas, até a trégua de final de ano ficou para 2017.

Quem pensava em tirar uma folga neste período de festas, quando o poder entra em recesso, pode ir tirando o cavalinho da chuva.

Vida que segue.