elisfilmedivulgacao 300x168 Elis, o filme: a emoção e a dor das lembranças

"A única coisa que eu quero fazer na minha vida é cantar, bicho".

Elis Regina, maior cantora do Brasil (1945-1982).

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Lembro-me bem daquele dia de janeiro de 35 anos atrás. Elis Regina Carvalho Costa, a maior cantora brasileira de todos os tempos, tinha apenas 36 anos.

Minha filha Mariana, na época com oito anos, veio correndo me informar na porta de casa quando cheguei do supermercado:

"Pai, a Elis morreu".

Sem tempo de me refazer do susto, corri para a redação da Folha, onde trabalhava como repórter, e logo me escalaram para fazer a matéria do velório, que saiu no dia seguinte com o título: "Para não acabar nunca mais".

O texto começava assim:

"Como é que eu faço para isso não acabar nunca mais?", perguntou ela há alguns dias a Roberto de Oliveira, que produziu alguns dos seus melhores espetáculos para a televisão. Elis referia-se àquele momento que parecia o mais feliz da sua vida _ de amor novo e tranquilo, gravadora nova, casa nova, mil planos de viajar o mundo cantando as músicas do novo disco que estava terminando de gravar. 

Os seus muitos amigos, que iam chegando no final da tarde ao velório no Teatro Bandeirantes (palco do seu magnífico espetáculo "Falso Brilhante", poucos meses antes), repetiam sempre a mesma frase: "Nunca vi a Elis tão contente com a vida como agora...". 

A artista talentosa e indomável, grande demais para a sua frágil figura humana, enganou a todos. No velório, ainda não se sabia a causa da morte, tão precoce quanto fora seu sucesso.

Ao ser revelada, dias depois, chocou a todos nós, seus amigos: overdose de álcool e cocaína.

Esta semana, ao ver Elis no cinema, agora na pele de Andreia Horta, uma atriz excepcional, voltaram-me as lembranças boas e sofridas da minha própria vida, já que somos contemporâneos. Foi uma paulada.

Como Elis, também comecei na carreira em 1964, o ano do golpe militar. A mesma censura que proibiu suas canções cortou minhas matérias.

Em 1982, quando ela morreu, já não havia mais censura e a ditadura estava nos seus estertores. Sonhava-se com liberdade e lutava-se pela volta da democracia.

Andreia Horta está tão perfeita no papel de Elis Regina que se fica sem saber quem é uma e quem é outra. Parece até uma reencarnação. Elis e Andreia tornaram-se uma só na cinebiografia dirigida com muito esmero, competência e carinho por Hugo Prata.

O filme é uma declaração de amor e de esperança, apesar do final trágico. Transborda emoção com a dor das perdas em contraste com a alegria contagiante de Elis girando os braços no palco e na gangorra da vida.

Guardo de Elis o maior premio que ganhei na vida, o voto dela no Troféu Pirandello, promovido no final de 1981 por Carlito Maia, publicitário e diretor da Globo em São Paulo, um grande amigo que também já se foi.

Por razões desconhecidas, Elis escreveu seu voto em castelhano:

Carlitito amorzito.

Mis votos, com todo respecto: Por la Justicia: d. Helder; por la Paz: d. Paulo Evaristo; por la Libertad: d. Ricardo Kotscho.

Carlitito flaco queridito:

Mi cariño, mi admiración. Que mis candidatos sean bien-venidos. Bellos dias em 1982! Si, por acaso, no sean nuevos los dias, por lo menos que sean agradables, Carlitito. 

Un beso! Cariño imenso.

Elis

Pois é, pequena grande Elis, lamento te dizer que agora já estamos em 2017, e os dias, sem esperança, com a reconquistada democracia cambaleante, não têm sido nada agradáveis.

Vida que segue.