joao O bom humor de João Carlos Martins no hospital

O maestro João Carlos Martins

Muito falante e de bom humor, contando histórias engraçadas como de costume, o maestro e pianista João Carlos Martins, de 76 anos, internado na véspera com embolia pulmonar, divertiu amigos de várias tribos que foram visitá-lo no Hospital Sírio-Libanês na tarde desta quarta-feira.

Ainda não há previsão de alta, mas seus fãs e amigos podem ficar tranquilos porque, pelo jeito, logo João estará de volta à frente da sua Filarmônica Bachiana e tocando piano.

Parecia que ele estava num sarau na sala de visitas da sua casa, como sempre acontece depois dos concertos em São Paulo. "Você gosta mesmo de um hospital", brinquei com ele, ao vê-lo bem disposto e louco para saber das novidades do dia.

Para quem já passou por 23 cirurgias nos últimos 50 anos, foi só mais um susto. Na manhã de terça-feira, ele começou a sentir fortes dores e sentiu um coágulo subir pela perna direita, que acabou se alojando no pulmão. "Escapei por pouco", comentava, rindo, e ele mesmo tratou de tranquilizar o médico que veio saber como tinha passado a noite.

"Estou muito bem, doutor, quando é que eu vou poder sair daqui?".

Poucas semanas antes, o maestro pianista havia passado por mais uma cirurgia, no mesmo hospital, para recuperar os movimentos do braço e de três dedos da mão esquerda que quebrou quando jogava futebol, em Nova York, meio século atrás.

Martins já tinha voltado a trabalhar e só se lamentava por não poder ir aos dois compromissos marcados para hoje : um concerto de manhã, no Teatro Municipal, em homenagem aos 463 anos de São Paulo, e a execução do Hino Nacional antes do jogo da seleção brasileira contra a Colômbia, à noite, no Engenhão.

Esta é a sua alucinante rotina faz muitos anos, no Brasil e no exterior, de onde sempre trás novas histórias para contar.

Se depender da sua disposição de menino, na quinta-feira que vem, dia 2, "nem que tenha que ir de maca", ele promete estar ao lado de Artur Moreira Lima, outro grande pianista brasileiro, numa apresentação no Citibank Hall, em São Paulo.

O que deixa o velho amigo mais animado é falar da estreia, no dia 7 de março, do filme "A Paixão Segundo João", uma cinebiografia com roteiro e direção de Mauro Lima, que conta as incríveis histórias de superação ao longo da vida do maestro, desde que começou a tocar piano com oito anos.

"Esta estreia eu não posso perder", diverte-se João com ele mesmo, e logo engata mais uma história.

"Uma vez, eu falei para o Adolfo Bloch (fundador e publisher da antiga revista Manchete) colocar o Emerson Fittipaldi na capa. Se ele ganhar a corrida, você vai vender um milhão de revistas. Sabe o que ele me respondeu?"

Dá uma pausa e imita Bloch falando: "E se ele morrer num acidente durante a corrida, eu vendo dois milhões...".

Assim é a vida, fazer o quê?

Vida que segue.