Vitória de Maia retrata falência do sistema político

Rodrigo Maia comemora sua eleição à presidência da Câmara em 2016

"Presidente, o senhor entra para a história hoje" (de Rodrigo Maia para Eduardo Cunha ao votar no impeachment).

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A virtual reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara, praticamente assegurada, com o apoio do governo e da oposição, é o retrato perfeito da falência do sistema político-partidário implantado pela Constituição de 1988.

Como sou meio lento de raciocínio, passei dias pensando na questão levantada semana passada pelo Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News: como explicar o fenômeno Rodrigo Maia?

Não que o jovem Maia seja um político fenomenal, longe disso, mas ele caminha para o abraço por absoluta falta de concorrência, resultado da implosão dos partidos nas águas da Lava Jato.

No pior Congresso Nacional da nossa história, não há mais lideranças partidárias fortes e respeitadas, que disputavam a hegemonia pau a pau com base em programas antagônicos e projetos nacionais.

O que sobrou é só uma disputa de interesses pessoais no varejão de cargos e verbas para garantir a própria sobrevivência nas próximas eleições.

Se tem uma coisa em que falhou a minha geração, aquela chamada de 68, foi na formação de novas lideranças.

Os antigos líderes partidários podem ter deixado herdeiros políticos, muitas vezes da mesma família, como Rodrigo, filho de Cesar Maia, ou os clãs ACM e Sarney, mas não permitiram o surgimento de verdadeiras lideranças políticas com novas ideias.

Isso vale também para o PT e o PSDB, que surgiram no embalo da redemocratização, e dominaram o poder central nas últimas duas décadas.

Quem Lula e FHC vão deixar?

É isso que explica o fenômeno Rodrigo Maia, filho daquele ex-prefeito carioca que se tornou conhecido pelos factoides (como pedir sorvete em açougue e andar de casaco no verão), por sua vez cria política de Leonel Brizola, o líder trabalhista do partido hoje comandado por Carlos Lupi, que era seu aspone.

Poucas eleições atrás, quase desapareceu do mapa o DEM de Maia, nome de fantasia do antigo PFL de ACM e Jorge Bornhausen, que nasceu de uma costela da Arena dos militares e se tornou força auxiliar do PSDB, mas hoje é apoiado até por uma ala do que sobrou do PT.

Uma nova expressão desta geleia geral partidária é o PSD de Gilberto Kassab, ex-ministro de Dilma e atual de Temer, que ao lançar seu partido o definiu como não sendo de direita nem de esquerda, muito pelo contrário.

No começo da atual disputa, até se lançou candidato um deputado do partido, Rogério Rosso (PSD-DF), que não conseguiu o apoio nem da própria bancada, também fechada com Maia.

Sem  chances, sobrou outra candidatura da base aliada, a de Jovair Arantes (PTB-GO), relator do impeachment, combativo membro sobrevivente da tropa de choque do Centrão de Eduardo Cunha, hoje preso em Curitiba.

A oposição conta com o nome de André Figueiredo (PDT-CE), mas apenas para fazer figuração, pois só tem o apoio do próprio partido, e olhe lá, porque agora todo mundo quer correr para o abraço de Maia, o novo dono do poder do alto e do baixo clero, que virou um só, os órfãos de Cunha.

Nesta pobreza de opções, só a Justiça poderá evitar a vitória de Rodrigo Maia, pois o STF ainda vai julgar a ação impetrada por André Figueiredo alegando que a Constituição impede a reeleição do presidente da Câmara na mesma legislatura (ver abaixo meu comentário sobre o assunto no link do Jornal da Record News). 

Fico pensando no que diria o velho dr. Ulysses Guimarães ao se deparar com este cenário.

Vida que segue.

No vídeo abaixo, comento as chances de Maia: