juca Na cara de pau, Jucá tenta, mas desiste de blindagem

O senador Romero Jucá (Foto: Pedro França/11.jul.2013/Agência Senado)

Passou quase despercebida a última manobra de Romero Jucá para blindar caciques ameaçados pelas investigações da Lava-Jato.

Sem aviso prévio, no escurinho do Senado, de repente ele apareceu com uma PEC, já apoiada pelas assinaturas de 28 parceiros da base aliada, para proteger os presidentes da Câmara e do Senado, ambos citados nas delações da Odebrecht.

O líder do governo no Senado, que já responde a nove inquéritos no STF, queria estender a Rodrigo Maia e Eunício Oliveira a prerrogativa de não serem investigados por fatos anteriores ao mandato, hoje exclusiva do presidente da República.

Poucas horas depois de apresentar a PEC, com a mesma cara de pau, o senador eleito pelo PMDB de Roraima retirou a proposta, e não deu maiores satisfações.

Não por acaso, Romero Jucá já serviu como líder ou ministro de todos os governos do PSDB e do PT nos últimos 20 anos.

Afastado do ministério do Planejamento na segunda semana do governo Temer, quando apareceu a gravação de Sergio Machado em que defende "estancar a sangria" da Lava Jato, continuou mandando no Senado ao lado de Renan Calheiros e José Sarney, o trio de ferro do PMDB que comanda a política brasileira desde a redemocratização, qualquer que seja o presidente.

Legisladores em causa própria para manter seu poder, eles não se vexam de dedicar seu tempo a um único objetivo: defender seus interesses e escapar da Justiça, como aconteceu na Operação Mãos Limpas na Itália, que desaguou na eleição do notório Silvio Berlusconi.

Esta forma de fazer política tornou-se suprapartidária, dominou todo o Congresso, e não dá bola para a torcida.

Na mesma tarde em que Jucá fazia mais uma tentativa para criar instrumentos de autoproteção, a Câmara dos Deputados resolveu incluir parentes de políticos no novo programa de repatriação de recursos não declarados no exterior.

Quase conseguiu. No fim do ano passado, com a participação de Jucá, o Senado já tinha tentado a mesma mutreta para beneficiar cônjuges e parentes de políticos, em manobra denunciada pela oposição.

Enviada para a Câmara, a proposta chegou a ser aprovada na noite de quarta-feira, com 303 votos a favor e 124 contra, mas os deputados recuaram diante da repercussão negativa e acabaram aprovando em "'votação simbólica" uma emenda do PCdoB para excluir a parentada dos políticos do novo programa de repatriação.

É assim que eles sempre fazem: tentam de tudo para se blindar e levar vantagem em tudo _ se passar, passou; se colar, colou. Quando são pegos em flagrante, devolvem a mercadoria, e fica tudo por isso mesmo.

Tem dado certo: das 404 ações penais concluídas no STF entre 2001 e março de 2016, 276 prescreveram, ou seja, 68% dos políticos com foro privilegiado escaparam. E só em 0,74% dos casos houve condenação. É uma ode à impunidade.

Romero Jucá não é um só _ são muitos, certamente a maioria dos atuais parlamentares formados nesta escola de degradação da política que transforma o público em privado na nossa triunfante República Patrimonialista do Brasil.