Imagine-se num teatro sem palco, mas com simpático barzinho montado num velho casarão da Barra Funda, onde ficam a sede e o depósito de cenários do Grupo Tapa.

Lá não tem bilheteria nem luminoso na porta, os ingressos são vendidos pelo WhatsApp e cabem apenas 15 espectadores por sessão, a 15 reais por cabeça, para assistir à peça O Torniquete, a primeira obra dramatúrgica de Luigi Pirandello, ambientada na Itália do início do século passado.

Esta é a nova experiência do Tapa: o "Teatro-Bar", dirigido por Eduardo Tolentino de Araújo, que já completou 30 anos na estrada, e não para de se reinventar.

"A ideia é criar um espaço de crítica e de diálogo, mas principalmente resgatar os aspectos lúdicos e o prazer de uma ida ao teatro", explica Tolentino, que abre o espetáculo com uma breve introdução sobre Pirandello e o teatro europeu da época, e depois comanda o debate com a participação dos três atores.

A peça propriamente dita, um melodrama com 50 minutos de duração, foi montada em três cômodos da casa, de tal forma que a pequena platéia veja pelas janelas o sofrimento da mulher adúltera cortejada pelo amante e torturada pelo marido no ermo de uma zona rural.

É tudo tão real, na primorosa atuação de Cinthya Hussey, Bruno Barchesi e Daniel Volpi, que sofri junto e quase me levantei para ajudar a mulher caída a meus pés, quando o marido traído começou a apertar o torniquete.

Nesta representação intimista, em que o espectador é ao mesmo tempo vizinho, testemunha e cúmplice do triângulo amoroso, Pirandello-Tolentino reproduzem a vida real sem que você perceba que aquilo é apenas teatro, tão bom que é.

De volta ao barzinho, todos juntos discutem, sem hora para acabar, não apenas o texto escrito tanto tempo antes da Lei Maria da Penha, mas o grande drama social brasileiro nestes anos iniciais do século XXI, em que a violência contra a mulher se espalha por toda a vizinhança.

Leve e sorridente, nem parece que a jovem atriz Cinthya Hussey passa por essa mesma tortura em quatro sessões por semana desde o dia 8 de dezembro.

Tem fila de espera, mas vale a pena reservar um ingresso pelo (011) 976 225 684.

E vida que segue.