Será que as palavras perderam força e sentido?

O escritor Luis Fernando Verissimo (Foto: Divulgação)

"Pode-se escrever tudo e não adianta nada" (Luis Fernando Verissimo, na crônica "Palavra" publicada hoje no Globo).

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Nestes tempos de pós-verdades e de mentiras convenientes, em que 140 carateres no twitter podem ameaçar o mundo inteiro e mudar nossas vidas de uma hora para outra, as palavras, tais como as conhecemos, perderam força e sentido?

De fato, como constata o sábio Verissimo, não temos hoje censura, assuntos ou nomes proibidos, somos livres para escrever sem amarras o que nos der na cabeça. Mas para que serve esta liberdade?

Penso nisso todos os dias de manhã quando abro o computador, leio o noticiário e penso no que vou escrever, um ritual cotidiano que sigo religiosamente, de domingo a domingo, com raros intervalos, como vou fazer agora no Carnaval, por exemplo.

Que diferença vai fazer se escrevo ou não sobre a saída de José Serra do Ministério de Relações Exteriores ou a entrada de Alexandre de Moraes no STF? Que importância isso tem para nós e o resto do mundo?

Somos tão livres e temos tantos assuntos à disposição, que fica difícil saber o que realmente vale a pena, o que ainda é capaz de despertar o interesse do internauta/leitor em meio à crescente avalanche de informações despejadas toda hora sobre o coitado nas mais diferentes plataformas.

Na dúvida, seria melhor perguntar à distinta platéia o que ela gostaria de saber de nós, como certa ocasião Verissimo fez ao começar sua palestra num encontro de escritores de que participamos juntos em Ouro Preto.

Em lugar de sair falando, ele passou a bola:

"Boa tarde, meu nome é Luis Fernando Verissimo, sou jornalista e escritor, e estou aqui à disposição de vocês. Podem perguntar".

E mais não disse. Fez-se o silêncio, até que alguém tomou coragem e dirigiu-lhe a primeira pergunta.

A partir daí, rolou o debate, com perguntas e respostas sempre concisas, que Verissimo é homem de poucas palavras e é daqueles tipos antigos que pensam antes de falar ou escrever, ao contrário do que vemos hoje em dia.

São tantas as certezas alimentadas pela internet, que o sujeito nem termina de ouvir a pergunta ou ler um texto até o final, e já sai falando e comentando qualquer coisa, sem admitir dúvidas.

Noto muito isso nos cometários enviados aqui ao blog. Pouco importa o que você escreva, ninguém muda de ideia.

Dia após dia, os contendores do Fla-Flu repetem os mesmos jargões num vocabulário cada vez mais restrito em que as palavras são mero detalhe.

Verissimo e eu somos do tempo em que a censura nos obrigava a fazer malabarismos para enganar os agentes da Polícia Federal encarregados de decidir o que podia e o que não podia chegar aos leitores.

Tivemos que desinverter a "piramide invertida", a regra secular do jornalismo que ensinava a abrir a matéria com as informações mais importantes e ir detalhando a notícia ao longo do texto, deixando as mais irrelevantes para o pé.

Aprendi a fazer o contrário, começando com algum detalhe falando de flores ou do tempo, para no final contar que grassava uma epidemia de meningite na cidade, um assunto proibido. Às vezes, passava.

Não era questão de estilo, mas de necessidade, um "disfarce" imposto pelas circunstâncias. Verissimo cita o poeta:

"O Mario Quintana disse que estilo é uma dificuldade de expressão. Na época em que a gente não podia escrever tudo o que queria, estilo muitas vezes era disfarce. Apelava-se para metáforas, elipses, entrelinhas, e dê-lhe parábolas sobre déspotas militares _ na China, no século XV".

Como já não sei mais sobre o que escrever, não me vexo a plagiar (está na moda) o criador do "Analista de Bagé": façam suas perguntas, o que vocês gostariam de saber?

Em tempo: volto depois do Carnaval, junto com as nobres excelências.