Na sequência de entrevistas que vem dando para promover o lançamento do terceiro volume das suas memórias da Presidência, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse à Folha que "nosso sistema político se esgotou, precisamos de outro".

Até aí, estamos todos de acordo, o problema é saber que outro sistema será esse. FHC não propõe nada para colocar no lugar, só constata a falência.

Quem tomou a iniciativa de apresentar um pacote de propostas para a "reforma política" que vem sendo gestada em Brasília, com o único objetivo de melar o jogo para salvar a cara dos políticos denunciados nas delações da Odebrecht, não foi nenhum ex-presidente, nem líder partidário ou da sociedade civil.

A manobra é comandada por Gilmar Mendes, o novo dono do Brasil, como se fosse a coisa mais natural do mundo um ministro do Supremo Tribunal Federal se reunir no Palácio do Planalto com os presidentes da República, da Câmara e do Senado, como aconteceu no último dia 15 de março, para discutir os termos de uma "reforma política".

Ao término da reunião, quem mais falou foi o ministro do STF, que mostrou preocupação com o "mau desenvolvimento do sistema político eleitoral" e elencou aos jornalistas uma série de "mudanças urgentes".

A questão central para Gilmar Mendes é o financiamento de campanhas, que está na origem da crise provocada pela Operação Lava Jato, ao investigar o mega-esquema de corrupção alimentado por propinas e Caixa 2 montado por empreiteiras para comprar partidos políticos.

Presidente do Tribunal Superior Eleitoral e incansável defensor do financiamento privado, Gilmar foi derrotado por 8 a 3 no STF, que proibiu as "doações eleitorais" de empresas, mas não desistiu.

Agora ele até admite um sistema misto com financiamento público e voto em lista fechada, uma forma de esconder os políticos ficha-suja, ou seja, quase todos, em busca de mais um mandato para garantir o foro privilegiado no STF.

A pretexto de combater os vazamentos das delações da Odebrecht, o que os atuais donos do poder querem mesmo é anistiar o Caixa 2.

O objetivo deles é zerar tudo e, se possível, anular as provas acumuladas nos inquéritos enviados pela Procuradoria Geral da República ao ministro relator Edson Fachin, que não tem a menor pressa para quebrar o sigilo dos depoimentos.

O resto é firula para distrair a platéia: redução do custo das campanhas políticas, fortalecimento institucional das legendas, racionalização do sistema político, transparência e simplificação das regras eleitorais, todo aquele velho discurso que ressurge sempre que a água começa a bater no pescoço das excelências.

O atual Congresso Nacional não tem a menor condição política, ética e moral para reformar nada, e esta não é uma tarefa para o Judiciário.

O último a tentar fazer uma "reforma política", não faz muito tempo, é bom lembrar, foi o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que hoje está preso em Curitiba.