Onda direitista sofre novo abalo, agora na França

Macron pé cumprimentado por eleitores neste domingo (23), na França (Foto: Reuters)

A onda direitista que ameaçou varrer o mundo após as inesperadas vitórias de Trump, nos Estados Unidos, e do Brexit, no Reino Unido, sofreu novo abalo no domingo, desta vez na França, depois das derrotas nas recentes eleições parlamentares na Alemanha e nas presidenciais na Holanda e no Equador.

Com o apoio já declarado dos principais partidos e candidatos que ficaram de fora do segundo turno, o jovem centrista Emmanuel Macron disparou à frente em todas as pesquisas para a rodada decisiva, daqui a duas semanas, abrindo larga vantagem sobre a direitista xenófoba Marine Le Pen, herdeira da Frente Nacional fundada por seu pai, o lendário extremista Jean-Marie, que ela acabou expulsando do partido por ser radical demais.

Os franceses mais velhos se lembraram logo do que aconteceu nas eleições de 2002, quando a Frente Nacional também chegou ao segundo turno, mas foi massacrada por 82,5% a 17,5% dos votos numa grande aliança formada pelo conservador Jacques Chirac, do Partido da República.

Claro que os tempos são outros, os institutos de pesquisa erraram feio ao não prever as vitórias de Trump e do Brexit, a diferença na votação agora pode não ser tão grande, mas o fato é que a Europa e o mundo respiraram aliviados nesta segunda-feira.

Os principais jornais franceses de diferentes tendências comemoraram nas manchetes: "A direita sofre nocaute", resumiu o conservador "Le Figaro"; "A um passo", previu o esquerdista "Liberation", ao lado de uma foto de Emmanuel Macron; "Jamais!", proclamou o comunista "L´Humanité" numa capa ilustrada por Marine Le Pen.

Estarão em jogo no dia 7 de maio dois projetos antagônicos de país e de mundo. Emmanuel Macron quer fortalecer a União Européia, da qual a França foi uma das cofundadoras junto com a Alemanha, defende os imigrantes e a globalização da economia. Le Pen é radicalmente contra tudo isso e propõe um referendo para decidir sobre a permanência da França no bloco, na tentativa de reeditar o Brexit.

Convém que os brasileiros assanhados em encontrar um Trump nativo prestem atenção sobre o que está acontecendo numa das mais antigas e sólidas democracias do mundo.

Como nas marés, as ondas da política vão e vêm. Se os eleitores americanos pudessem votar novamente...

Há apenas três anos, poucos sabiam quem era Macron, executivo do sistema financeiro que nunca havia disputado uma eleição. Ex-ministro da Economia do socialista François Hollande, ele fundou o partido "Em Marcha!" e se tornou a grande surpresa da mais disputada eleição francesa dos últimos tempos.

Se desta vez as previsões dos institutos de pesquisa estiverem certas, ele poderá se tornar, aos 39 anos, o mais jovem presidente da república francesa.

Vive la France!