Direita festiva carioca avança e está na moda

Memes de Os Dias Eram Assim fazem piada com a ditadura no Brasil

Eles vão aos poucos ganhando espaço em todos os lugares _ nas colunas de meios impressos e eletrônicos, charges e cartoons, palestras e debates, programas humorísticos, shows musicais.

São cientistas políticos e filósofos, roqueiros e escritores, economistas e jornalistas.

Como chamá-los? O que os une? Quem é seu líder? De onde surgiram? Aonde querem chegar?

É a safra dos "neocons da intelligentsia", algo que podemos genericamente denominar de direita festiva, um contraponto à esquerda festiva dos anos 60 e 70 do século passado.

Como todas as modas e modismos, surgiu em tempos recentes no falido Rio de Janeiro e logo se espalhou pelo resto do país. Está na moda.

Vinha reparando neste fenômeno, mas só agora tomei a decisão de escrever sobre o assunto ao ler a reportagem "Seriado da Globo motiva memes que ironizam crimes da ditadura militar", de Felipe Giacomello, publicada na Folha desta quarta-feira.

Nesta versão das imagens com legendas canalhas que circulam em grupos de WhatsApp, certamente inspirados pelo que leem e ouvem dos gurus da direita festiva, questionam a repressão do regime militar e querem mostrar que a ditadura foi uma festa, algo inimaginável até pouco tempo atrás.

"Os dias eram assim", a excelente série da Globo que estreou semana passada, é ambientada no período dos generais-presidentes em que os opositores do regime eram presos, torturados, ou simplesmente desapareciam.

Nos memes, ícones daquela época aparecem se divertindo na praia, e noutra imagem Chico Buarque e Lula jovens brindam num boteco.

Chico e Lula, não por acaso, são os principais alvos dos "neocons" que invadiram a cena cultural carioca, dividindo as torcidas num novo Fla-Flu entre os que os amam e os que os odeiam.

A hashtag "Os dias não eram assim", também não por acaso, foi lançada e multiplicada na web pela família Bolsonaro, mas os novos arautos da "intelligentsia" nativa não têm líderes nem objetivos definidos.

São apenas "livres pensadores", como se definia Millor Fernandes, que era o exato oposto deles.

Claro que não chegam a defender o atual governo, embora politicamente se alinhem ao pensamento do seu ministro da Cultura, também um ex-comunista, como muitos deles na juventude.

O que os une é apenas o feroz anti-lulopetismo e tudo o que antigamente se chamava de esquerda, se é que ainda se possa falar assim.

Os caros leitores já devem ter notado que procurei não fulanizar esta crônica do cotidiano, que apenas busca registrar fatos e tendências. Nem seria preciso.

Vocês certamente já sabem de quem estou falando, mas evitei citar nomes porque a esta altura da vida não quero arrumar novas brigas com gente que não tem humor e logo parte para a desqualificação de quem pensa diferente, uma de suas características.

Para não dizerem que sou tendencioso, prefiro lembrar uma frase do ex-ministro Roberto Campos, um legítimo "oldcon", ao definir a esquerda festiva:

"É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar _ bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês: trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola...".

Na pobreza de ideias e sabedoria em que vivemos, falta um Roberto Campos para definir agora o que é direita festiva. Até nisso regredimos.

Vida que segue.