Toca o telefone fixo. Ligação a cobrar. Entra a voz de uma mulher desesperada, aos prantos, dizendo que é minha filha, que foi assaltada e sequestrada, e precisa da minha ajuda.  "Pai, faz o que eles pedirem, pelo amor de Deus!"

Para saber se é minha filha, pergunto o nome dela, tento esticar a conversa, saber onde está, mas não tenho resposta.

Em seguida, entra um cara falando alto e me dando ordens sobre o que devo fazer para ele não matar a menina.

O que você faria?

É tudo muito rápido, não dá tempo de pensar em nada.

Claro que, num primeiro momento, decidi fazer qualquer coisa que ele me pedisse para salvar a filha. Você perde completamente a capacidade de raciocínio, vira um completo idiota, humilhado e impotente.

Estava terminando de escrever minha coluna na manhã de sexta-feira e, em questão de minutos, enfrentava o maior horror que já passei na vida.

O bandido ficava cada vez mais agressivo ao telefone, só falava em matar, não me deixava falar.

Só consegui perguntar o que ele queria.

"Já sei que você é um velho aposentado, ela me falou, então vou deixar por cinco mil reais, mas tem que ser rápido. Nem pense em avisar a polícia. Não fale com ninguém. Deixa este telefone ligado e me passa o número do teu celular. Vou falar para o chefe te ligar. Faz do jeito que estou mandando ou vou ser obrigado a matar tua filha".

O celular toca, mas a voz é conhecida, não é de outro bandido. Era um velho amigo, colega da Record, que tinha ficado de me ligar. Explico rápido que naquele momento não posso, estou com problemas e desligo.

Digo ao tal chefe que ainda estou de pijama, preciso me vestir e, no meio do desespero, perco meus óculos. Vou relatando tudo aos dois, que passam a falar ao mesmo tempo nos telefones com viva voz.

Tento dizer a eles que não tenho esse dinheiro, preciso ir ao caixa eletrônico, mas lá só liberam R$ 500 de cada vez. Como vou me vestir tendo que falar em dois telefones ao mesmo tempo e, ainda por cima, sem óculos?

"Você faz o seguinte: bota a roupa, vai no caixa, pega 500 paus em dinheiro e depois vai na agência do banco pegar o resto. Deixa o celular ligado que eu vou te dando as instruções para pegar o dinheiro e devolver a tua filha. Daqui pra frente vou te chamar de pai e você me chama de filha, entendeu?.

Estava apenas a empregada em casa. Ao perceber minha aflição ao telefone, ela pergunta o que está acontecendo, mas eu não posso falar nada. A boca vai ficando seca, o coração dispara.

Visto a calça e fico na dúvida sobre o que fazer. Será que era mesmo a voz da minha filha? Se não era, era muito parecida. Como saber?

Peço para falar novamente com ela, insisto para que diga seu nome, mas a mulher só chora e pede para fazer o que eles estão mandando.

Desta vez, fiquei na dúvida.

Veio a ordem: "Se você não fizer já o que estou mandando, dou um tiro nela e acabo com esta história. Se você não quiser tua filha de volta é só desligar o telefone".

Instintivamente, bati o telefone e corri para outro aparelho da casa, perdido no tempo e no espaço, sem saber o que fazer.

O celular da filha estava desligado e o da minha mulher caiu na secretária eletrônica.

Quando liguei para a outra filha e contei o que estava acontecendo, ela começou a chorar e mal consegui lhe pedir para que viesse urgente à minha casa. A família toda foi acionada.

Neste meio tempo, minha mulher chegou e procurou me acalmar: "Calma, isso é golpe, já fizeram comigo!".

Como saber? Como ter certeza de que minha filha está viva?

Só quando ela me ligou, meia hora depois, consegui voltar ao normal, mas eu precisava vê-la. "Agora não posso, pai, estou numa reunião importante. Está tudo bem comigo".

Meio à força, minha mulher me levou à farmácia para medir a pressão, um velho problema que já tinha me mandado duas vezes para o hospital no ano passado.

Outro alívio: deu 14 por 8, muito normal para as circunstâncias. Passei no teste do coração, escapei desta vez, mas minha cabeça não parava de girar pensando no que poderia ter acontecido.

Por sorte, tinha um encontro marcado com amigos no bar da esquina para o nosso almoço das sextas-feiras.

Ninguém deu muita bola para a minha agonia: todos já haviam passado pela mesma situação, e começaram a contar cada um suas histórias, todas muito semelhantes.

E como é que a gente ainda cai num golpe desses?

É a tal história: só temos ideia do que é isso quando esta praga acontece com a gente.

Vida que segue.