Fábio Luiz Carille de Araújo, paulistano criado em Sertãozinho, o técnico que levou o Corinthians a comemorar mais um título neste domingo no Itaquerão, passou sete anos só observando e aprendendo como auxiliar de Mano e Tite, seus mestres.

Quando os dois saíram do clube para treinar a seleção brasileira, viu outros técnicos passarem por lá e continuou esperando sua vez, sem reclamar.

Aos 44 anos, a conquista do discreto Carille foi acima de tudo a vitória da humildade, à imagem e semelhança do time que montou sem estrelas, mas com muita determinação.

Antes do jogo, ficou sentado no banco de reservas e nem foi posar ao lado do time para a tradicional foto do título já quase certo depois da vitória por 3 a 0 na primeira partida.

Ao contrário de outros técnicos da nova geração, ele não é de ficar o tempo todo gritando com os jogadores e xingando o juiz, andando de um lado para outro à beira do gramado.

Fala pouco antes e depois dos jogos, sem ficar dando aulas de técnica, tática e estratégia para explicar resultados com números anotados na prancheta. Ninguém o chama de "professor".

A exemplo de Zé Ricardo, campeão pelo Flamengo, outro jovem treinador que faz da humildade um estilo de trabalho, Carille surge como esperança de renovação no futebol brasileiro.

É nos treinos que ele passa aos jogadores o que cada um deve fazer e o que espera deles: brigar por cada bola como se fosse a última, formando um time compacto, preenchendo todos os espaços do campo.

Durante o jogo, Carille fica ali na área técnica só observando, passando uma ou outra orientação, fazendo pequenos ajustes.

Não inventa, não quer aparecer mais do que quem está em campo, não veste ternos de grife, anda sempre de boné e agasalho do clube. Faz seu arroz com feijão, mas sabe o que está fazendo.

Ex-lateral esquerdo, cuida primeiro da defesa, joga para não tomar gols, ataca sem correr riscos e não está preocupado em dar espetáculo. Como acontecia com Tite, vitória por 1 a 0 para ele está bom demais.

Num clube quase falido, começou desacreditado como o Corinthians, chamado de quarta força do futebol paulista, e foi juntando pontos sem despertar a atenção dos adversários até chegar à final.

A torcida nunca gritou seu nome. O ex-presidente André Sanchez nem sabia quem era Carille quando ele assumiu pela primeira vez como técnico interino, em 2010. Só o conhecia por Fábio.

Quem melhor definiu o trabalho do seu antigo auxiliar foi Tite, em entrevista à Folha antes do jogo decisivo:

"Carille merece o reconhecimento. É um ser humano de caráter e princípios éticos. Teve ricas experiências como ex-atleta associadas à ambição e humildade na busca do conhecimento e evolução".

Salve o Corinthians! Viva Carille!

Vida que segue.