Justiça lenta e falta de opções: Temer vai ficando

Manifestantes foram à Avenida Paulista no último domingo (21) pedir o afastamento do presidente Temer (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress)

Em tempo (atualizado às 16h55): 

Na tarde desta terça-feira, 23 de maio de 2017, o deputado Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 7 anos, 9 meses e 10 dias de prisão em regime fechado. 

Como o caso é dos anos 1990 do século passado, pelas minhas contas, a ser mantido este ritmo, o processo do presidente Michel Temer só deverá ser levado a julgamento por volta de 2040. 

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Os maiores aliados do presidente Michel Temer no momento são a lentidão da Justiça e a falta de opções no mercado _ e assim ele vai ficando.

Dois movimentos simultâneos na segunda-feira deram ao presidente o que ele mais queria: ganhar tempo para segurar a base aliada e não perder o foro privilegiado, seu maior temor.

Primeiro, a presidente do STF, Carmen Lúcia, decidiu esperar a perícia da Polícia Federal nas gravações da JBS  e adiou a reunião plenária, inicialmente prevista para quarta-feira, em que seria julgado o pedido de suspensão do inquérito contra Temer.

Logo em seguida, a defesa do presidente retirou o pedido de suspensão do inquérito e apresentou o resultado de uma perícia particular que considerou os áudios imprestáveis.

Como a PF não tem prazo para apresentar seu relatório técnico, não se sabe mais quando o pleno do STF vai se manifestar sobre o inquérito em que o presidente é investigado por crimes de obstrução de Justiça, corrupção passiva e organização criminosa.

De outro lado, o consórcio político-midiático-empresarial que levou Temer ao poder também não se entende sobre o que fazer com ele e quem poderia substituí-lo no cargo por absoluta falta de um nome de consenso.

Dividida, a grande mídia já não tem o mesmo poder de antigamente para fazer e derrubar presidentes, e os partidos aliados, que ameaçavam desembarcar do governo, acharam melhor esperar para ver o que acontece até o dia 6 de junho, quando começa o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, o novo Dia D.

Ainda que a chapa seja cassada, uma possibilidade cada vez mais remota após a troca de ministros no TSE, Michel Temer já avisou que vai recorrer a todas as instâncias para empurrar o processo até o final do seu mandato.

Ficamos então na dependência do chamado "fato novo" para apressar o desfecho desta nova crise do fim do mundo deflagrada pelas delações da JBS, que puseram as da Odebrecht no chinelo.

Fique quem ficar no Palácio do Planalto, quem vai continuar mandando no pedaço é o ínclito Congresso Nacional, como acontece desde a redemocratização do país, qualquer que seja o presidente.

Embora o regime seja nominalmente presidencialista, o poder é parlamentarista, sempre a serviço de quem banca as campanhas para eleger suas excelências.

Neste sistema político-partidário-eleitoral com prazo de validade vencido, tirar Temer para deixar em seu lugar Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, que é o nome mais cotado no momento nas bolsas de apostas em Brasília, não vai fazer muita diferença.

Para que correr riscos? Só o que importa para o "establishment" é aprovar logo as reformas, custe o que custar, sem correr o risco de uma reviravolta que leve à antecipação de eleições diretas.

É nisto que Michel Temer joga todas as suas fichas, distribuindo pacotes de bondades, que já somam R$ 160 bilhões, entre emendas parlamentares, perdão de dívidas dos ruralistas, anistia de multas e outras benesses.

Em minoria absoluta no Congresso _ só tem um em cinco parlamentares _ a oposição limita-se a cumprir tabela com pedidos de impeachment e fazendo obstrução, à espera de grandes manifestações populares, mas "as ruas" parecem cansadas de guerra, a julgar pela amostra dos fracassados protestos do último domingo.

E assim entramos no sétimo dia após as delações da JBS, que levaram o governo às cordas, mas Temer continua em pé.

Em tempo: na tarde desta terça-feira, o STF retoma o julgamento do deputado Paulo Maluf (lembram-se dele?) acusado de usar contas no exterior para lavar dinheiro desviado quando era prefeito de São Paulo no final dos anos 90 do século passado.