Vamos combinar de não falar de política para evitar brigas, pelo amor de Deus.

Quantas vezes você já não fez ou ouviu este apelo em reuniões familiares e sociais nos últimos tempos?

Alguns, visivelmente, não concordam com a sugestão e ficam calados.

Diante da aceitação da maioria ainda lúcida, o papo geralmente começa com abobrinhas, brincadeiras e lamúrias gerais sobre a situação financeira de cada um.

Felizes são os que ainda estão empregados e tiveram reduções menores nos salários, aqueles que podem pagar suas contas sem entrar no cheque especial nem fazer empréstimos.

À medida, porém, que o tempo vai passando e esvaziando garrafas de vinho, o tom de voz começa a aumentar aos poucos.

Uma divergência aqui, outra ali, nada grave.

Basta alguém falar algo a favor ou contra o governo, da última decisão do STF ou da nova delação na Lava Jato, acaba a confraternização e começa o furdunço.

Entre velhos amigos, voltam as velhas discussões que mais parecem uma gravação antiga em fita cassete.

A esta altura da vida, é claro, ninguém mais vai mudar de time, de preferências partidárias ou sexuais, de suas opiniões definitivas sobre políticos e celebridades, de quem presta ou não presta.

De bate papo a bate boca, é um pulo só. O clima muda radicalmente, começa a ficar pesado, e as mulheres, com um canto de olho, mostram-se preocupadas com a veemência dos seus maridos.

Isso sempre foi assim, mas foi piorando com o tempo, à medida em que avançava a pós-verdade, com cada um querendo impor a sua como a definitiva porque leu não sei aonde a versão que está defendendo.

O jeito é apelar para o doutor Google e ver quem tem razão, mas também não resolve. Ali você vai encontrar as mais variadas versões para o mesmo fato. Cada um pode escolher a dele para reforçar suas certezas.

A turma do deixa-disso tenta intervir, em vão. Os mais alterados só não saem no tapa e na pernada porque as condições físicas já não permitem. As agressões, ainda bem, são apenas verbais.

Ninguém vai mudar uma vírgula no que pensava antes de chegar. Para que então ficar brigando neste Fla-Flu cada vez mais histérico em que se dividiu o país desde a última campanha presidencial?

Como não cair na armadilha? Se alguém souber, por favor, me dá a receita. Adianta eu querer convencer os outros de que o meu São Paulo está jogando o fino da bola e o Rogério Ceni é um gênio incompreendido?

Bons tempos, aqueles em que a gente só quebrava o pau por causa de futebol ou de mulher.

Depois que começa, a refrega só termina junto com a última garrafa de vinho.

Vida que segue.