"O rabo começa a balançar o cachorro. Ora bolas..."

O autor da frase acima é o ministro Gilmar Mendes, durante seu discurso de mais de duas horas na sessão de quarta-feira do STF para decidir o que fazer com as delações da JBS.

Não poderia haver definição melhor para o estado da arte neste momento caótico que o país está vivendo. Só resta saber quem é o cachorro.

Gilmar sabe das coisas, muito mais do que a gente imagina, está em todas.

Na véspera, à noite, ofereceu um jantar em sua casa para a cúpula do governo: o presidente Michel Temer e seus principais ministros, Eliseu Padilha e Moreira Franco.

O encontro não estava na agenda oficial de nenhum deles.

A versão oficial do Palácio do Planalto é que discutiram a reforma política, mas meu colega blogueiro Ricardo Noblat, de O Globo, estranhou a pauta:

"Seria admissível em um país civilizado e de fato democrático, onde a independência dos poderes é respeitada ao extremo, que um presidente da República, acompanhado de ministros de Estado, fosse jantar na casa de um ministro da mais alta corte de Justiça para, oficialmente, discutir reforma política ou qualquer outro assunto?"

Não precisa ser nenhum gênio da ciência política para saber que este outro assunto poderia ser um só: a indicação do nome que vai ocupar o lugar de Rodrigo Janot na Procuradoria Geral da República a partir de setembro.

Nenhuma surpresa: a escolhida foi Raquel Dodge, a mais anti-Janot na lista tríplice votada pelos membros do Ministério Público Federal.

Duramente atacado pelo presidente Michel Temer no pronunciamento de terça-feira, Janot também foi o principal alvo de Gilmar Mendes na sessão do Supremo, mas ficou em silêncio o tempo todo.

"Lealdade devemos à Constituição e não à Procuradoria Geral da República," repetiu o ministro várias vezes em seu libelo contra os métodos da força-tarefa da Lava Jato e a homologação do acordo de delação premiada feito com Joesley Batista.

Sem citar nomes, Gilmar acionou sua metralhadora giratória também contra as teses em contrário defendidas por outros ministros, que o estavam derrotando por 7 a 0 quando a sessão recomeçou, mas nenhum vestiu a carapuça.

Empolgado com a própria voz, não se abalou em ficar isolado na discussão sobre as delações premiadas, leu trechos do direito penal alemão no original e abusou de silêncios majestáticos entre um ataque e outro.

"Os parâmetros legais que deveriam reger os acordos nunca foram devidamente observados. Criou-se uma espécie de direito penal de Curitiba. Normas que não têm a ver com o que está na lei".

Enquanto Gilmar falava no STF, a tropa de choque do governo no Congresso preparava os novos lances da guerra aberta contra Rodrigo Janot.

A base aliada quer convocar procuradores envolvidos nas negociações do acordo de delação na PGR assim que a CPI da JBS for instalada.

O deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), um dos principais aliados do presidente, já entrou com ação na Justiça solicitando o registro dos acessos ao prédio da PGR pelos delatores no período de março a maio.

"Os executivos delatores demonstraram a todo o Brasil que o crime, para eles, compensou", diz o deputado na ação.

Esta vai ser a a principal estratégia do governo em sua defesa na Câmara, onde começa a tramitar hoje a denúncia encaminhada pelo STF contra o presidente Michel Temer por corrupção passiva.

É só disso que se vai tratar nos próximos dias.

Para cuidar da sua defesa, Temer até cancelou a viagem para participar da reunião do G20 na próxima semana, em Hamburgo, na Alemanha. E o Congresso deve cancelar o recesso de julho.

É a primeira vez, desde 2008, que um presidente do Brasil não vai comparecer ao encontro.

Vida que segue.

Em tempo (atualizado às 11h55):

Gilmar Mendes foi sorteado na terça-feira para ser relator do inquérito que investiga o tucano José Serra, citado na delação da Odebrecht.

Hoje, quinta-feira, Gilmar Mendes vai receber em seu gabinete o senador José Serra, segundo agenda divulgada pelo TSE.