Só um dos 513 deputados registrou presença na Câmara nesta sexta-feira: Celso Jacob (PMDB-RJ), preso em regime semiaberto, condenado a sete anos de prisão.

Bastaria isso: nada poderia simbolizar melhor o tempo presente em que o Brasil parece anestesiado à espera de um milagre.

No mesmo dia, o STF mandou soltar o homem da mala dos R$ 500 mil e devolveu o mandato ao senador Aécio Neves, presidente licenciado do PSDB, acusado de receber propina da JBS.

Durante a semana, já tinha tirado da prisão a irmã e o primo do senador mineiro enquanto adiava para agosto o julgamento do processo em que a PGR pede a prisão dele.

Ao lhe devolver todos os direitos parlamentares, o ministro Marco Aurélio Mello justificou assim a sua decisão monocrática:

"O agravante é brasileiro nato, chefe de família, com carreira política elogiável".

Então está tudo explicado. Quem vai contestar o supremo ministro?

Em Brasília, fora dos tribunais e dos plenários, tudo calmo nas ruas no dia da greve geral: havia mais policiais do que manifestantes na Esplanada dos Ministérios.

Foi o "grito do silêncio", como bem definiu meu colega João Domingos em sua coluna no Estadão.

Com as centrais sindicais rachadas, enquanto negociam com o governo um jeitinho de manter o imposto sindical, a nova greve foi um rotundo fracasso, quase tudo funcionando normalmente em todo o país.

A semana chega ao fim com os mesmos 14 milhões de desempregados, o crescimento do PIB zerando, a arrecadação federal caindo e a ameaça de aumento de impostos.

Para evitar o estouro do rombo fiscal, o governo decidiu não dar mais aumento para a Bolsa Família e estuda o fim do abono salarial, mas, em compensação, acelerou e prorrogou até novembro o pagamento das emendas parlamentares.

Num país sem dinheiro nem para a emissão de passaportes, o Senado já tem na boca do forno a "reforma política" do impoluto Romero Jucá acenando com a bolada de R$ 3,5 bilhões de financiamento público para a campanha eleitoral de 2018.

E ainda tem gente achando que está tudo normal, as instituições funcionando em sua plenitude e agora é só uma questão de tempo para o país voltar aos trilhos.

Vida que segue.