"Se a redemocratização no país, em seu processo de amadurecimento, foi marcado pelo mote da esperança, discurso alimentado por diferentes campanhas ao longo dos anos, o que se vê hoje é uma sociedade pautada  por desalento e especialmente por medos".

Esta é a dramática conclusão a que chegaram os diretores do Datafolha, Mauro Paulino e Alessandro Janoni, após o conjunto de pesquisas publicadas pelo instituto na última semana.

Em 2002, quando o ex-presidente Lula venceu sua primeira eleição presidencial, lembro-me bem, a comemoração na avenida Paulista exibia uma faixa em que se lia: "A esperança venceu o medo".

Quinze anos depois, com um impeachment no meio, os sentimentos da população se inverteram.

O medo a que se refere a pesquisa não é só da violência urbana, mas das consequências da crise política e econômica que se arrasta desde 2014, ameaçando as principais conquistas do período: emprego e renda.

"Porcaria", "desastre", catástrofe", "decepção" e "desgosto" são as primeiras palavras lembradas por 81% dos entrevistados quando perguntados sobre o atual momento do país.

Cresceram ao mesmo tempo a vergonha de ser brasileiro que, pela primeira vez, supera o orgulho, o pessimismo sobre os rumos da economia e o descrédito nas instituições brasileiras, que nunca foi tão alto.

Salvaram-se apenas as Forças Armadas, que lideram os índices de confiança, o que também pode explicar o crescimento na mesma pesquisa de Jair Bolsonaro, o ex-militar que agora aparece em segundo lugar nas intenções de voto para 2018, atrás apenas de Lula.

No levantamento publicado nesta segunda-feira, o Datafolha constata também "leve refluxo de tendência do eleitorado brasileiro que pendia à direita há três anos, em meio à disputa presidencial de 2014".

Os números mostram um país literalmente dividido ao meio no posicionamento ideológico: 41% à esquerda, 40% à direita e 20% no centro.

A mudança de comportamento mais evidente se apresenta no aumento do número de brasileiros que defendem a posse de armas.

Eram 30%, em 2013, e agora este índice subiu para 43% dos eleitores, outro dado a favor de Bolsonaro, que baseia sua campanha nesta bandeira.

Num ponto, porém, eleitores de todas as tendências concordam, segundo a pesquisa: "a Justiça trata os ricos melhor do que os pobres".

Importante notar que esta pesquisa, com 2.771 entrevistas feitas em 194 cidades, foi a campo dos dias 21 a 23 de junho _ antes, portanto, das decisões do STF na última sexta-feira, que libertaram o "homem da mala" e devolveram o mandato de senador a Aécio Neves.

Vida que segue.