São todos vítimas inocentes de uma armadilha?

Aécio Neves ficou afastado do Senado por 46 dias após ser acusado de corrupção passiva e obstrução de Justiça (Foto: Jefferson Rudy/10.05.2017/Agência Senado)

Você, caro leitor, não viu nem ouviu nada, combinado?

Apague da memória todos os áudios e vídeos repetidos até a exaustão desde maio, quando estourou a bomba das delações da JBS.

É tudo "ficção". Ou será alucinação de quem acha que tudo aquilo realmente aconteceu?

Segundo as versões oficiais, os mais de 1.800 políticos delatados por Joesley Batista, agora apontado como "empresário bandido" e "criminoso confesso", são todos vítimas inocentes de uma armadilha preparada junto com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Aquela mala de dinheiro circulando pela noite paulistana, a conversa fora da agenda no porão do palácio, os telefonemas combinando a entrega de propina, tudo isso não prova nada.

Acreditem: o propinoduto ligando o poder público e a iniciativa privada para abastecer políticos de quase todos os partidos simplesmente não existiu. É uma miragem.

"Não cometi crime algum. Não aceitei recursos de origem ilícita. Não prometi nem ofereci vantagem ilícita a ninguém", proclamou Aécio Neves ao voltar à tribuna do Senado na terça-feira, na mesma linha da defesa de todos os outros acusados.

Como não dá para apagar as imagens e as conversas das gravações anexadas à denúncia de Janot por corrupção passiva, entre outros crimes, adotou-se a velha estratégia de que a melhor defesa é o ataque contra o delator e a Procuradoria Geral da República.

Num documento de quase 100 páginas dividido em 11 capítulos, a ser entregue na tarde desta quarta-feira à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, advogado do presidente Michel Temer, centra a defesa na "inexistência de provas de corrupção passiva" e na "falta de autenticidade" da conversa gravada entre o presidente e o empresário na noite de 7 de março no Palácio do Jaburu.

Mariz desafia Janot a provar em que circunstâncias Temer teria recebido a propina de Joesley Batista entregue ao ex-deputado Rodrigo Rocha Loures indicado pelo presidente para servir de intermediário entre o governo e a JBS.

Na denúncia, o procurador-geral afirma que a mala com os R$ 500 mil tinha Temer como real destinatário da propina.

Como sabemos, diante dos chamados fatos novos, Loures achou melhor entregar a mala à Policia Federal e, quando descobriram que faltavam R$ 35 mil, ele correu para devolver o resto do dinheiro.

"Mostramos na defesa a inexistência de provas de corrupção passiva. A prova toda é baseada em gravação ilícita e contaminou todos os demais elementos. Mesmo que assim não fosse, considerando-se como correta a gravação, mesmo assim, não se encontra nenhum elemento que comprometa o presidente da República", diz o documento da defesa.

Resta saber o que pensam disso os nobres deputados da CCJ convocados a decidir a partir de hoje sobre a admissibilidade da denúncia contra o presidente Temer.

A todos nós outros, estupefatos cidadãos e contribuintes, com as ruas silenciadas, só resta acompanhar à distância mais este capítulo da interminável batalha jurídica-política-policial que está paralisando o país.

Não me lembro quem disse, mas eu concordo: é melhor um fim horroroso, qualquer um, do que um horror sem fim.