Do jeito que a coisa vai, com os destinos do país nas mãos da delação de Eduardo Cunha, anunciada para a próxima semana, tudo pode acontecer.

Pelos sinais que está dando da cadeia em Curitiba, além do presidente Michel Temer e seus ministros, Cunha vai entregar também a cúpula do Congresso Nacional, podendo deixar Rodrigo Maia e Eunício Oliveira fora de combate.

Quem sobra?

Vai acabar sobrando para a Carmén Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, a terceira e última na linha sucessória, única excelência que não foi citada nas delações da Lava Jato nem é investigada pela Procuradoria Geral da República.

Por mais que não queira o cargo, a doce, frágil e ao mesmo tempo firme ministra, mineira de 63 anos e 40 quilos, já pode ir preparando o vestido da posse e começar a pensar num eventual ministério para tocar o barco Brasil até o fim do ano que vem.

Carmén Lúcia já era a candidata preferida de parte importante da mídia quando Temer começou a balançar e, até onde sei, o tal do "mercado", que é quem manda de fato, nada teria a opor ao nome dela. Nem eu.

Anos atrás, quando já era ministra do STF, participei de um debate junto com ela em Brasília, e tive a melhor das impressões desta senhora de perfil austero, mas sem perder a ternura, que gosta de contar "causos" engraçados da sua terra.

Como este que ela contou à repórter Carolina Linhares, da Folha, sobre o que aconteceu quando estava num táxi (a presidente do STF anda de táxi e dirige seu próprio carro!), em Belo Horizonte, sábado passado.

Foi no dia seguinte às decisões do STF em que soltaram o homem da mala e devolveram Aécio Neves ao Senado. A ministra se assustou quando viu um painel na fachada de um edifício no centro.

"Eu olhei de longe e falei: `Nossa Senhora!´. Para mim, tinha escrito assim: `Fora, hoje é dia do Supremo´. E aí eu interpretei: hoje é dia de pegar o Supremo. Depois eu vi, era: `Oba, hoje é dia do Supremo´ e Supremo é a marca de um produto que estava sendo anunciado".

Ao reconhecer a ministra, o taxista comentou que ela parecia muito receosa, e Cármen respondeu que estava mesmo:

"Eu estou igual mulher que apanha. Na hora que alguém pega o chicote para bater no cachorro, ela já sai correndo. Isso de tanto que todo mundo me fala o tempo todo, e denuncia, e critica o Judiciário, como tem que ser mesmo, porque o povo não está satisfeito, e nem eu".

O taxista também poderia ter-lhe perguntado de que adianta trocar Temer por Maia agora, como a imprensa vem anunciando, para correr o risco de, daqui a pouco, serem obrigados a tirar Maia para colocar Eunício, que também está na lista de Cunha?

Melhor seria que todos renunciassem de uma vez e chamassem logo a Carmén Lúcia para por ordem na casa.

Por via das dúvidas, expressão bem mineira de um povo precavido, a ministra poderia começar a pesquisar nomes para ajudá-la na árdua missão.

O maior desafio da eventual presidente da República seria encontrar homens e mulheres acima de qualquer suspeita para montar sua equipe.

Talvez se torne necessário, nesse caso, reduzir o tamanho do ministério...

Vida que segue.