No ritmo atual, recuperar empregos levará 100 anos

Mesmo que seja pouco, é sempre melhor pingar do que secar a fonte, ensinam os caipiras mais velhos.

Pensei nisso quando li na segunda-feira o noticiário sobre a criação de 9,8 mil empregos com carteira assinada em junho, segundo o Ministério do Trabalho.

No primeiro semestre, foram geradas 67,4 mil novas vagas no mercado de trabalho, o melhor resultado desde 2014, quando a crise econômica se agravou.

O que representa isso num universo de 13,8 milhões de desempregados?

Em primeiro lugar, mostra que, pelo menos, este número parou de crescer nos últimos três meses. Esta é a notícia boa: a curva começou a se inverter.

Mas é cedo para soltar rojões, como faz a propaganda oficial, pois ainda temos um longo caminho pela frente para ter de volta o que foi perdido.

Neste ritmo, se não errei nas contas, vai levar pelo menos 100 anos para recuperarmos o nível de emprego de antes da crise. Vamos aos números.

Mantida a média de pouco mais de 10 mil empregos criados por mês no primeiro semestre, segundo os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), chegaríamos a 120 mil no final do ano.

Em 10 anos, daria 1,2 milhões de novos empregos. Para voltarmos ao pleno emprego, levaríamos pelo menos um século, quando, provavelmente, já não estarei mais aqui.

Como as previsões do governo e do mercado financeiro para o crescimento do PIB em 2017 giram em torno de 0,5%, parece pouco provável acelerar tão cedo o processo de criação de novas vagas.

Levantamento divulgado no mesmo dia pela Serasa Experian mostra que o número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a 5,1 milhões em maio.

Em comparação com o levantamento feito em maio do ano passado, houve um aumento de 15,9% na inadimplência, atingindo um total de R$ 119,2 bilhões em dívidas das empresas.

Na outra ponta, pesquisa de recuperação de crédito Recovery feita pelo Data Popular mostra um contingente de 61 milhões de trabalhadores inadimplentes, que devem, em média, até três vezes o valor do último salário.

"É metade da população economicamente ativa", constata Flavio Suchek, presidente da Recovery.

Com o prolongamento da crise, o número de pessoas desempregadas há mais de dois anos praticamente dobrou de 2015 para cá, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Já são quase 3 milhões de pessoas nesta situação, sem emprego fixo e cada vez com maiores dificuldades de se recolocar no mercado de trabalho.

Diante do cenário de desemprego prolongado e inadimplência crescente de assalariados e empresas, como romper este círculo de ferro em que as crises se retroalimentam?

Para não dizer que não falei de flores, o setor agrícola se tornou, literalmente, a salvação da lavoura.

Responsável pela criação de 117 mil vagas, o campo permitiu este modesto saldo positivo no semestre, já que todos os outros setores da economia mostraram retração no mercado de trabalho.

Bem fez um antigo colega de redação, o Prosinha, filho de fazendeiros, ao largar o emprego na Edição de Esportes do Estadão, nos anos 70 do século passado.

Desencantado com a profissão, comunicou-nos, simplesmente: "Vou voltar pra roça, isso aqui não dá mais. Tchau e benção".

Nunca mais ouvi falar dele, mas deve estar bem de vida.

Vida que segue.