"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro"  (Mario Quintana no livro "Ora bolas", de Juarez Fonseca, uma pequena antologia de causos engraçados do grande poeta brasileiro).

Geralmente, é o autor, reconheço;  às vezes, porém, são os dois.

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20 de julho de 1969, um dia para não esquecer.

"Parabéns!", veio me cumprimentar minha mulher logo cedo, sem que num primeiro momento eu descobrisse o motivo.

Afinal, tudo faz muito tempo.

Deve ter sido uma feliz coincidência. No mesmo dia em que o homem pisou pela primeira vez na Lua, há exatos 48 anos, eu tinha começado a namorar com esta mulher, a Marinha.

Às 23 horas, 56 minutos e 20 segundos, quando Neil Armostrong quase escorregou da pequena escada da nave e afundou o pé esquerdo no solo lunar do Mar da Tranquilidade, nós vimos juntos a cena histórica pela televisão, sentados no sofá da casa de praia dos pais dela, em Caraguatatuba.

Ela tinha só 16 anos, eu era cinco anos mais velho e, o que é pior, já trabalhava como jornalista, algo muito mal visto pelas famílias da época.

"Amor de praia não sobe a serra", costumava-se dizer naquele tempo.

Pois o nosso subiu e ficou até hoje, os dois aposentados e avós de cinco netos.

A 384 mil quilômetros daqui, ouvimos o comandante Armstrong proferir a célebre frase que ficou na memória de um bilhão de pessoas que testemunharam aquele momento histórico (um entre cada quatro habitantes da Terra; hoje, já somos 6 bilhões).

"Este é um pequeno passo para o homem, um giganteso salto à frente para a humanidade".

Sem dúvida, a partir da viagem espacial bem sucedida, vivemos uma fantástica revolução tecnológica que me permite escrever este texto na internet no sítio de Porangaba, embora a conexão continue caindo a toda hora.

Tudo faz muito tempo, e a memória já não ajuda.

Compramos este sítio _ na verdade, uma terra pelada com a casa caindo _ já faz quase quarenta anos.

Sentados na varanda, contemplamos a nossa obra, os lagos, os bosques, tudo verde, bem cuidado e bonito, graças à Marinha e à família do Zé Telles, que trabalha com a gente desde o começo.

Ao som da galinha botando ovo, dos passarinhos em festa e das crianças jogando bola na quadra, ouvindo Tonico e Tinoco, nos olhamos sem falar nada.

Parece tudo um milagre, e até hoje tem gente que não acredita que o homem chegou à Lua e nós dois continuamos juntos, tão diferentes somos.

Vida que segue.