limabarreto Lima Barreto nunca foi tão falado e tão atual

O escritor Lima Barreto

O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana (Lima Barreto).

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Está na moda Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), polêmico escritor e jornalista, preto e pobre, morador de subúrbio, que sempre deu murro em ponta de faca e remou contra a maré.

Autor de 17 livros em apenas 41 anos de vida, só se fala dele nos cadernos de cultura dos jornais e portais.

Estrela principal da 15ª Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty aberta na noite desta quarta feira, na Igreja Matriz, ele anteviu a grande tragédia carioca.

Lima Barreto nunca foi tão falado e tão atual.

Vejam só este trecho da crônica "15 de Novembro" que ele publicou em 1921:

"Escrevo esta no dia seguinte ao do aniversário da Proclamação da República. Não fui à cidade e deixei-me ficar pelos arredores da casa em que moro, num subúrbio distante (...).

Saí pelas ruas do meu subúrbio longínquo a ler as folhas diárias. Lia-as conforme o gosto antigo e roceiro, numa  venda de que minha família é freguesa.

Quase todas elas estavam cheias de artigos e tópicos tratando das candidaturas presidenciais. Afora o capítulo descomposturas, o mais importante era o de falsidade.

Não se discutia uma questão econômica ou política, mas um título do Código Penal.

Pois é possível que, para que o chefe de uma nação, o mais importante objeto de discussão seja esse?.

Voltei melancolicamente para almoçar, em casa, pensando, cá com meus botões, como devia qualificar perfeitamente a República".

Melancolicamente, preparando o nosso almoço enquanto escrevo e leio Lima Barreto, me pergunto o que ele diria hoje da nossa República, em que metade do Congresso e algumas das principais lideranças políticas do país sub-judice?

O candidato que mais cresce nas pesquisas presidenciais de 2018 chama-se Jair Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que elogia torturadores e prega a volta da ditadura militar.

"Triste Visionário" é o perfeito título da biografia de Lima Barreto que a historiadora branca Lilian Schwarcz lançou na palestra da festa de abertura da Flip, ao lado do ator negro Lázaro Ramos, autor de "Na Minha Pele", sobre o racismo no Brasil.

Visionário e premonitório sobre os destinos da República, Lima Barreto só não poderia imaginar que, quase um século depois, o Brasil corresse o risco de cair nas mãos de um Bolsonaro.

Só o fato de que hoje alguém com esse perfil possa ser um candidato competitivo é assustador.

Falta um Lima Barreto para contar o que está acontecendo no Brasil de 2017.

Vida que segue.