"O mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer " (Albert Einstein, citado por Miguel Srougi no artigo "Brasil, o ocaso de uma nação").

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Duas pesquisas divulgadas neste final de semana revelam qual é o ânimo, ou melhor, o desânimo dos brasileiros neste momento, a pouco mais de um ano das eleições presidenciais, quando os pré-candidatos já começam a viajar pelo país.

Que país é este? É bom eles saberem lendo estas pesquisas.

Segundo levantamento do Instituto Ipsos, apenas 50 % dos 1.200 entrevistados em 72 municípios defendem a democracia e meros 6% se sentem representados pelos políticos em quem já votaram.

Como consequência desses números, não é difícil entender o que diz o Instituto Paraná Pesquisas: se pudesse escolher, um em cada três  brasileiros (34,6% dos 2.468 entrevistados) iria embora daqui.

Ambas as pesquisas foram feitas antes da "reforma política" anunciada na semana passada com o único objetivo de preservar os mandatos dos atuais donos do poder, atingindo o mais alto nível de degradação e cinismo da nossa representação parlamentar.

Em lugar de reduzir o número de deputados e senadores e o custo das campanhas eleitorais, querem nos impor novas regras para deixar tudo como está e garantir o foro privilegiado.

Entre outras mutretas para perenizar seus privilégios, os deputados da comissão especial da "reforma política" aprovaram uma doação de R$ 3,6 bilhões de dinheiro público para o "financiamento da democracia".

Pelos cálculos do jornalista Elio Gaspari, isto vai custar a cada cidadão a módica quantia de R$ 17, mas por que não entregar este dinheiro diretamente aos principais interessados, os eleitores, sem intermediários, para que eles próprios decidam em quem querem investir seu voto?

Ressuscitaram até o "distritão" para reeleger os mesmos de sempre, uma gambiarra criada por Eduardo Cunha, que nem o ex-poderoso presidente da Câmara, hoje preso em Curitiba, conseguiu aprovar na "reforma política" que tentou fazer em 2015.

Que moral tem esse Congresso, o mais corrupto da nossa história, onde mais da metade dos parlamentares enfrenta problemas na Justiça, para fazer qualquer reforma, ainda mais em causa própria?

Diante deste cenário, não devem causar espanto os índices do Ipsos nas respostas às questões sobre a democracia e a representatividade:

* O Brasil é um país onde a democracia é respeitada? Responderam "não" 86% dos entrevistados.

* Considera o nosso tipo de democracia o melhor regime para o Brasil? Para 47%, a resposta também é não.

* Os políticos que estão no poder representam a sociedade? Impressionantes 94% responderam "não".

* Apenas 15% concordam que "no Brasil, todos são iguais perante a lei".

Do jeito que vai, a atual classe política está conseguindo desmoralizar não só os partidos e as instituições, mas a própria democracia representativa.

A notícia positiva é que boa parte dos brasileiros está assumindo sua responsabilidade diante desta situação: 44% dos entrevistados pelo Ipsos concordam com a frase "a corrupção é culpa do povo que elege políticos corruptos".

Em 2018, teremos nova chance de punir os corruptos com o nosso voto.

É a única arma que temos para defender a democracia abalada.

Vida que segue.