Quem dá todo este poder a Gilmar Mendes?

Gilmar Mendes / Foto: Carlos Humberto-SCO-STF

"Se isso acontecer, o rabo abana o cachorro", indignou-se Gilmar Mendes ao ser contrariado por um juiz de primeira instância que mandou prender de novo o réu que o supremo ministro tinha mandado soltar.

"Aí, o Supremo passaria a ser um órgão inferior em relação a promotores e juízes", justificou, ao dar o segundo habeas corpus em apenas 24 horas a Jacob Barata Filho, o "rei dos ônibus" do Rio.

Antes da semana acabar, Mendes aproveitou a viagem para soltar o resto do bando acusado de pagar a políticos mais de R$ 200 milhões em propinas.

Padrinho de casamento da filha do réu, de quem seu cunhado é sócio, com a mulher trabalhando no escritório de advocacia que defende a máfia, Mendes não se considerou impedido de julgar o caso.

"Toda vez que se concede habeas corpus vem essa onda toda. Eles imaginam que não se pode soltar as pessoas, não se pode dar liberdade", desabafou o ministro.

Na verdade, desta vez não se criou onda nenhuma, pois a sociedade já está acostumada com as preferências do ministro, depois que ele mandou soltar um médico estuprador, empresários propineiros e poderosos banqueiros.

Sai governo, entra governo, sai governo, entra governo, e quem continua mandando é ele, o verdadeiro dono do Brasil, desde que foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal por Fernando Henrique Cardoso.

É Gilmar Mendes quem detém o poder soberano de fato, quem manda prender ou soltar, inocentar ou condenar, dita as suas próprias leis, nomeia quem quer, julga como lhe convém e não dá satisfações a ninguém.

Os demais ministros do STF a tudo apenas assistem, ninguém dá um pio.

Quem segura esse homem?

Quem lhe dá o direito de tripudiar sobre a Constituição e exercer todo este poder, que a todos amedronta, com seu olhar de peixe morto e sorriso de aeromoça?

Parece personagem de ficção do realismo mágico de Gabriel Garcia Marques, mas é assustadoramente real.

Nos últimos tempos, o ministro, que é também presidente do Tribunal Superior Eleitoral, mandou todos os escrúpulos às favas e circula altaneiro pelos palácios dos três poderes como quem vistoria a própria fazenda.

Diante dele, Legislativo e Executivo contentam-se em exercer um poder menor e jornalistas se limitam a segurar os microfones.

Mendes resolveu partir para o deboche, achincalhar a ordem legal, ri da nossa cara, faz o que bem quer.

O noticiário apenas registra as suas façanhas, uma após a outra, como se fossem as coisas mais naturais do mundo, o chamado "novo normal".

Ninguém mais se espanta com nada, não há mais panelaços, protestos, pesquisas, editoriais furibundos.

A promiscuidade das suas relações pessoais e familiares com os réus são meros detalhes da paisagem, nada o impede de seguir em frente.

Como costuma dizer o Heródoto Barbeiro, só estou perguntando.

Será que alguém tem a resposta para o título desta coluna?

Afinal, quem manda Gilmar Mendes mandar no Brasil?

Bom domingo a todos.

Vida que segue.