selton Não deixe de ver O Filme da Minha Vida

Selton Mello é diretor e ator em O Filme da Minha Vida (Foto: Divulgação)

Chega de "reforma política", a novela que nunca acaba. Vamos falar de coisa boa.

Saí encantado do cinema na noite de quarta-feira com vontade de falar para todo mundo não deixar de ver "O Filme da Minha Vida", uma obra-prima brasileira dirigida com muito esmero por Selton Mello, adaptada do livro de Antonio Skármeta.

Corram, pois. Como é filme nacional, não costuma ficar muito tempo em cartaz.

Pode não ter sido o melhor, mas certamente foi o mais bonito que já vi, até onde me lembro.

É de uma beleza rara, uma simplicidade narrativa e uma delicadeza cativantes, da primeira à última cena.

Trata-se da saga particular de uma família de colonos na Serra Gaúcha, no começo dos anos 1960, quando o pai deixa a casa depois de engravidar outra mulher, e desaparece, para desespero do filho único..

Prometo não contar o final, mas garanto que é feliz, algo muito raro hoje em dia.

Tudo nele faz bem aos olhos e à alma: as interpretações contidas, as paisagens rurais de antigamente, a cenografia urbana da época, a direção de arte, os figurinos, a trilha musical franco-brasileira.

Não só os protagonistas _  os pais Vincent Cassel e Ondina Castilho, os jovens Johnny Massaro e Bruna Linzmeyer, com a participação muito especial de Rolando Boldrin, além do próprio Selton Mello _ mas também os coadjuvantes e até os figurantes estão perfeitos em seus papéis.

Dirão os idiotas antológicos de Nelson Rodrigues que nem parece cinema nacional, tão bem feito é este filme.

A trama toda se desenvolve entre o campo e a cidadezinha de Redenção, às margens de uma ferrovia, focada nas relações familiares e de amizade numa sociedade ainda muito apegada a rígidas tradições e valores morais.

Johnny Massaro nasceu para fazer o papel de Tony Terranova, o jovem professor atormentado pela descoberta do amor e por seus alunos adolescentes, apaixonado por cinema.

Como os outros atores, ele fala mais com o olhar e os silêncios do que com palavras, em diálogos sempre breves e instigantes.

Tinha toda razão meu velho amigo de meio século Alberto Quartim de Moraes, editorialista do "Estadão", jornal onde começamos a trabalhar juntos, na mesma época em que se passa o filme, ao me convencer a ir ao cinema. Escreveu-me ele:

"É um filme que o Brasil inteiro está precisando assistir. Não tem nada de político, no sentido convencional da expressão, mas nos ensina, tocando o âmago da alma de cada um (pelo menos, de quem tem alma), que com todos seus encontros e desencontros a vida é bela e digna de ser vivida para quem sabe abrir espaço para o encantamento e a generosidade do amor".

É isso mesmo, caro Quartim. Valeu a pena ter saído de casa neste inverno gelado de São Paulo.

Vida que segue.