"Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça": a receita do Cinema Novo imortalizada por Gláuber Rocha e por ele atribuída a outro cineasta, Paulo Céser Saraceni, voltou a ser lembrada depois que Rodrigo Maia recomendou aos candidatos sem dinheiro que comprem um celular de alta definição para fazer suas campanhas no ano que vem.

Beleza. Pode até ser uma boa ideia para acabar com as campanhas bilionárias, ameaçadas de ficar sem financiamento público nem privado com o fracasso da "reforma política", prevista pelo presidente da Câmara.

Meio século depois da revolução do Cinema Novo que pretendia mostrar a realidade brasileira e popularizar a nossa cultura produzindo filmes de baixo custo, o grande desafio é exatamente encontrar candidatos com alguma ideia na cabeça que não seja levar vantagem em tudo e se perpetuar no poder.

Gláuber queria denunciar as profundas desigualdades sociais nesta terra rica onde o povo passava fome _ a mesma que ronda outra vez os lares de milhões de brasileiros.

Quase todo mundo hoje em dia, fora alguns analfabetos digitais como este velho jornalista, é capaz de produzir vídeos de boa qualidade com um celular na mão e divulgá-los nas redes sociais gastando quase nada.

Seria a solução perfeita para baratear as campanhas, se a nossa classe política tivesse o que propor para o debate.

O problema não é o instrumento a ser utilizado, mas o conteúdo, no momento em que os partidos, órfãos de lideranças confiáveis, vão se autodestruindo e a única ideia nova é trocar o nome das siglas.

Além de acabar com a boca rica dos marqueteiros e dos fornecedores da grande indústria eleitoral, a proposta de Rodrigo Maia pode também obrigar os candidatos a tomarem contato com a realidade brasileira, sujando os sapatos e ouvindo os eleitores.

Poderiam também aproveitar para acabar com o "horário gratuito" de rádio e TV, que na verdade somos nós que pagamos, com a renúncia fiscal oferecida às emissoras ao custo de R$ 1,8 bilhão nas próximas eleições.

Fora do ar na mídia tradicional, com os showmícios proibidos, a população anestesiada e revoltada com os políticos, os candidatos teriam que fazer suas campanhas apenas no gogó, limitando a propaganda eleitoral às redes sociais.

Se isto realmente acontecer, dá para imaginar a carnificina que vai acontecer na blogosfera na hora em que os milhares de candidatos invadirem nossos computadores e celulares com seus vídeos caseiros?

Vai dar uma pane geral na internet, o que certamente não ajudará a tirar o sistema político brasileiro do estado comatoso em que se encontra.

Chegamos a um ponto em que não há solução fácil para o impasse criado com o crescente descrédito das instituições, que coloca em risco nossa frágil democracia, e não é por falta de dinheiro, mas de vergonha na cara.

Assim caminhamos de Gláuber Rocha a Rodrigo Maia _ vejam só que evolução! _, do Cinema Novo à grande chanchada da "reforma política".

Como não existe política sem políticos, nem democracia sem partidos, se o presidente da Câmara dos Deputados estiver mesmo falando sério, é bom inventarem um celular com detector de mentiras embutido e computadores à prova de bala.

Vida que segue.