Anos atrás, tive a oportunidade de participar de um debate em Brasília com a ministra Cármen Lúcia, hoje presidente do Supremo Tribunal Federal.

Não me lembro bem do tema, mas era algo ligado à ética, assunto já muito discutido na época, antes da Lava Jato.

Tive dela ótima impressão, pela firmeza com que expõe suas ideias e o compromisso com as atribuições do seu ofício.

Muito afável e atenciosa, tratou a todos de igual para igual, sem aquela cerimônia das excelências de Brasília.

Por isso, fiquei contente quando ela assumiu a presidência da mais alta Corte do país, e estranho agora seu comportamento em relação ao colega ministro Gilmar Mendes.

"Pedidos contra Gilmar Mendes têm lenta tramitação com Cármen Lúcia", informa matéria da excelente repórter Carolina Brígido, publicada neste sábado pelo jornal O Globo.

As ações contra Gilmar movidas pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, chegaram ao STF na segunda-feira, mas até agora a presidente do tribunal não tomou nenhuma providência.

Continua parado no gabinete da presidência o pedido de suspeição feito por Janot para que o ministro seja impedido de atuar em processos da "Operação Ponto Final", que investiga a "máfia dos ônibus" no Rio, por suas relações pessoais com os investigados, entre eles, o empresário Jacob Barata Filho.

Em 2013, o ministro foi padrinho de casamento de Beatriz, filha de Barata, que se casou com um sobrinho da mulher de Gilmar, Guiomar Mendes.

Por duas vezes, Gilmar concedeu habeas-corpus mandando soltar o compadre Barata e outros investigados presos por ordem do juiz federal Marcelo Bretas.

E, em seguida, viajou mais uma vez para Portugal, onde vai passar os próximos 15 dias.

Antes de mandar o pedido de Janot para o plenário, Carmen Lúcia deverá pedir a manifestação de Gilmar Mendes, mas até sexta-feira não havia elaborado despacho neste sentido, informa Carolina Brígido.

Como o ministro está em viagem, parece não haver pressa em dar andamento ao caso.

Por que a demora? Não é a primeira vez que a PGR pede a suspeição de Gilmar Mendes.

No último dia 8 de maio, Rodrigo Janot já havia pedido ao STF para declarar o ministro impedido de atuar em outro processo, quando concedeu habeas corpus ao empresário Eike Batista, cliente do escritório de Sérgio Bermudes, onde trabalha Guiomar Mendes.

Relata a repórter: "No mesmo dia em que chegou ao tribunal, a ação foi encaminhada ao gabinete da presidente. No dia 19, Cármen elaborou um ofício pedindo a manifestação de Gilmar. O ofício foi enviado ao ministro no dia 23. No dia 26, Gilmar entregou as informações. Desde então, o caso está parado no gabinete da ministra".

Estranho também é o comportamento dos demais ministros, que não se manifestam sobre o assunto e não demonstram o menor interesse para que o pedido da PGR vá a julgamento em plenário.

Para não deixar a pergunta do título sem resposta, só posso atribuir esta leniência ao espírito extremamente corporativista do STF, em que as relações de amizade (não entre todos, cabe ressaltar) muitas vezes se sobrepõem ao interesse público, e ao que determinam as leis e o regimento do tribunal.

Bom final de semana a todos.

E vida que segue.