kotscho Espaço de vida na cidade que faz bem à alma

Professor Argeo (sentado ao centro, com Clélia) rodeado por seus ex-alunos no lançamento do livro

De vez em quando, a gente ainda descobre coisas belas aqui mesmo sem precisar sair de São Paulo.

Foi o que aconteceu na tarde de sábado quando fui a um encontro com velhos colegas de escola em que o nosso paraninfo do colegial, professor Argeo de Carvalho Viviani, de 86 anos, lançaria seu primeiro livro (Uma novela, tantas histórias e alguma poesia), pela Graphium Editora.

O endereço no convite não era de uma livraria de shopping, mas do Instituto Casa do Todos, escondido numa rua residencial do Brooklin.

Que lugar era aquele?, perguntei ao chegar e tive uma bela surpresa a cada passo dentro da casa, fora a emoção dos reencontros com colegas na faixa dos 70 anos.

Ali funciona um espaço de vida, uma ilha de solidariedade em meio à selva de concreto.

"O Instituto Casa do Todos é um espaço de ação comunitária que se revela como uma rede de serviços dirigida a todas as pessoas que nos encontram. O propósito do trabalho é servir e multiplicar a atitude que possibilita a expressão e impressão da relação da pessoa com ela mesma e com o outro", explica Mirella D´Angelo Viviani, filha do professor Argeo, criadora e uma das responsáveis pela instituição.

São profissionais das áreas de saúde, educação e arte, que se dedicam a um trabalho voluntário bancado por parcerias com o setor privado (mais informações no site www. casadotodos.com.br).

Feliz no papel de mestre de cerimonias da festinha organizada para o lançamento do livro, ao lado de Clélia, a inseparável companheira de Argeo, Mirella seguiu os ensinamentos do pai, que começou a dar aulas aos 18 anos no serviço público estadual como professor de Língua Portuguesa e, além de formar várias gerações no nosso colégio, o Instituto de Educação Professor Alberto Conte, em Santo Amaro, foi voluntário em cursos de alfabetização de adultos.

Mais do que nos ensinar a escrever corretamente, Argeo foi um professor de cidadania, de ética e de compromisso social numa época difícil, logo após o golpe militar, em que era perigoso falar sobre a realidade brasileira.

Embora fosse o mais novo naquela classe e só tenha entrado no último ano, acabei sendo escolhido orador da turma de 1966, ao mesmo tempo em que iniciava minha carreira de jornalista na Gazeta de Santo Amaro.

Vários colegas acabariam seguindo esta profissão, talvez por influência do próprio Argeo, mas hoje estão quase todos aposentados ou trabalhando em outras áreas.

Como de hábito, o professor falou pouco sobre seu livro, que nem o nome dele tem na capa, e procurou mais saber como estavam as vidas de seus alunos, o que andavam fazendo.

Saí de lá com a alma mais leve após rever esta turma de meio século atrás, gente simples porém decente, que me fez lembrar de um tempo em que os jovens não sonhavam em ir embora do Brasil.

Ao contrário, aprendemos com Argeo a batalhar por um país mais justo, fraterno e solidário. Continuamos sonhando e batalhando, apesar de tudo.

Vida que segue.