kotscho2 225x300 Mariana, após dois anos: as marcas da impunidade

Numa viagem de estudos de meio ambiente para um trabalho escolar, o grupo de alunos da oitava série do Colégio Santa Cruz viajou pelas cidades históricas de Minas Gerais e parou em Mariana, palco da grande tragédia ambiental de dois anos atrás.

Enquanto as crianças percorriam as ruínas e conversavam com sobreviventes do rompimento da barragem do Fundão, que deixou 19 mortos e um rastro de destruição no Vale do Rio Doce, o juiz federal de Ponte Nova, Jacques de Queiroz Ferreira, suspendeu a segunda ação contra 22 acusados pelos homicídios.

A decisão foi baseada na obtenção de provas ilícitas alegada pela defesa dos acusados, entre eles, o diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi.

Indignado com a decisão da Justiça, que aponta para a impunidade, Joceli Andrioli, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, desabafou em entrevista à Agência Brasil:

"A Justiça trata o povo como bobos. Estamos estarrecidos de ver essa completa inoperância da Justiça. Parece de fato que a tendência é se fazer vista grossa em relação a grandes empresas que cometeram o maior crime social e ambiental dos últimos tempos".

Na volta da excursão, minha neta mais velha, Laura Kotscho, de 14 anos, escreveu um texto para o trabalho escolar, que incluiu também uma peça (A fuga dos profetas) criada pelos alunos da sua classe e encenada esta semana no teatro do colégio.

Em meio aos escombros, ela encontrou na biblioteca da escola municipal de Paracatu de Baixo um livro de matemática. Título: "Alegria de aprender". Não dá para ver o nome do autor.

Transcrevo abaixo o texto que a neta escreveu:

Marcas de um desastre

Laura Kotscho

"... essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso" (Walter Benjamim).

A educação é a base de um povo. A partir dela, as pessoas tomam consciência de seus direitos e deveres como cidadãos, porém, infelizmente, esses direitos são violados pela ganância.

A busca por um progresso a qualquer custo traz consequências, é irresponsável e causa vítimas, como o que aconteceu em Paracatu de Baixo, onde a população perdeu tudo.

No ano de 2015, ocorreu o considerado maior desastre ambiental do Brasil. A barragem, pertencente à mineradora Samarco, rompeu, fazendo com que um mar de lama arrastasse cidades inteiras pelo caminho, levando vidas. Mas, afinal, quanto vale uma vida? Na disputa pelo poder e pelo dinheiro, vale tudo? Vidas não contam e o ser humano sempre fica por último.

Mariana simboliza a injustiça causada por uma cidadania ainda não construída, atrasada em quesitos essenciais voltados para o povo, como educação, saúde, segurança, etc... Uma vez que a pressa para o progresso impede a resolução destas questões, deixa os cidadãos vulneráveis diante do poder.

Em Paracatu de Baixo, distrito de Mariana, a escola municipal onde a foto foi tirada estava em destroços _ quase dois anos após o desastre.

Os pedidos marcados nas paredes, que foram literalmente riscadas pelos próprios atingidos, implorando por ajuda, ainda não foram ouvidos pelas autoridades e a alegria de aprender foi tomada pelo descaso.

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kotscho 233x300 Mariana, após dois anos: as marcas da impunidade

Como não pude assistir à encenação de A fuga dos profetas na quinta-feira porque estava trabalhando, pedi a Laurinha para me enviar um resumo da peça:

"A história se passa no século XVIII, em Congonhas do Campo, MG, mais precisamente no Santuário de Bom Jesus do Matosinho, onde estão expostas as estátuas dos profetas, que são obras de Aleijadinho.

Os profetas ganham vida à noite e conversam sobre o que escutaram durante o dia.

A principal discussão é sobre a situação política em que o Brasil se encontrava: a escassez do ouro, o aumentos dos impostos, a derrama e os inconfidentes.

Obdias (Rodrigo Pimentel) e Miqueias (Laura Kotscho), dois profetas que não concordam com as decisões do governo e com a morte de Tiradentes, recebem de Deus (Fernando Magalhães) a função de tentar convencer o governador de Vila Rica a parar de punir aqueles que só querem liberdade.

Para isso eles ganham corpo humano e têm exatamente uma semana para realizar a tarefa".

Um trecho da peça:

"Todos os homens nascem para ser iguais, livres! Devemos lutar pela liberdade e pela busca da felicidade! E podemos finalmente instituir, após uma longa série de abusos, explorações e corrupções, um novo governo de que todos possam fazer parte, mas precisamos de vocês para que possam nos ajudar e resistir até o fim!".

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Diante da decisão da Justiça de suspender o processo contra os responsáveis pela tragédia de Mariana, sugiro a Laura mudar o título do seu texto para "Marcas da impunidade".

Vida que segue.

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