Trem fantasma na política, mas Bolsa bate recorde

A Bolsa de Valores dispara (Foto: Luiz Prado/Divulgação/BM&FBOVESPA)

Você lê o noticiário político-policial e tem a nítida impressão de estar a bordo de um trem-fantasma desgovernado.

Veja alguns exemplos desta terça-feira, 12 de setembro:

UOL/Folha: "Temer autorizou caixa 2 a campanha de Chalita por telefone, diz Lúcio Funaro".

R7: "Lula e mais seis são denunciados por corrupção na Operação Zelotes".

Estadão: "PF aponta crimes de Temer em desvios praticados pelo PMDB".

O Globo: "Janot: próximos quatro dias serão a semana mais longa da gestão".

Veja: "Acusação contra o `quadrilhão do PMDB´deixa Planalto em alerta".

No mesmo dia, você vai aos cadernos de economia e lê a manchete:

"Bolsa bate recorde histórico com o otimismo".

Dá para entender? De onde vem esse otimismo?

É como se vivêssemos em dois Brasis diferentes, de realidades absolutamente opostas.

Sempre achei que o ânimo dos investidores na Bolsa estivesse diretamente ligado à estabilidade política e institucional de um país, o que não é o nosso caso, infelizmente, muito ao contrário.

É um mistério que só o comentarista econômico Richard Rytenband poderá explicar no Jornal da Record News. 

Como comentarista político e repórter do cotidiano, limito-me a registrar esta aparente contradição entre a vida real e o mundo maravilhoso das Bolsas de Valores.

Meus amigos rentistas que jogam na Bolsa e especulam com dólar andam felizes da vida (este ano, o mercado acionário brasileiro já subiu 23,4%).

Na segunda-feira, o Ibovespa chegou a 74.319 pontos, um recorde histórico, enquanto Brasília fervia com novas denúncias e delações que atingem tanto os partidos do governo como da oposição.

Do outro lado da estrada, quem vive de salário enfrenta dificuldades a cada dia maiores e morre de medo de perder o emprego.

Cada vez mais gente está simplesmente deixando de acompanhar o noticiário para não desanimar _ uns, para continuar jogando na Bolsa sem medo e, outros, porque simplesmente já não conseguem entender o que está acontecendo.

Entre as razões apresentadas para explicar o estouro da Bolsa no auge da crise política-jurídico-policial, especialistas ouvidos pelos jornais apontam o pacote de privatizações, os juros e a inflação sob controle, e o tímido crescimento econômico no primeiro trimestre, após uma longa recessão.

Contribuem também para a melhora no ambiente de negócios a lambança nas delações da JBS e o enfraquecimento da PGR nas denúncias contra o presidente Michel Temer.

Ninguém mais acredita que a Câmara possa aceitar uma segunda denúncia de Rodrigo Janot, depois que o procurador-geral foi flagrado no fim de semana batendo papo num boteco com o advogado da JBS, às vésperas da prisão do delator Joesley Batista.

Além do mais, faltam apenas seis dias para Janot transmitir o cargo à nova procuradora geral, Raquel Dodge, indicada por Temer, que assume na próxima segunda-feira.

Também o comando da Polícia Federal deverá ser trocado em breve, como já anunciou o ministro da Justiça, Torquato Jardim.

Tudo isso junto levou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a prever que a reforma da Previdência poderá ser votada em outubro.

Como nada é impossível neste cenário absolutamente imprevisível, sob as constantes ameaças de novas bombas na Lava Jato, pode até ser que, antes do final do ano, o trem-fantasma volte aos trilhos e o país possa respirar outra vez sem sustos, antes do início da campanha eleitoral de 2018.

Vida que segue.

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