Fernando Jordão: jornalismo perde exemplo de dignidade

O jornalista Fernando Pacheco Jordão em imagem de 2011 (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)

Aos poucos, a minha geração de jornalistas vai perdendo as referências que enobreceram e dignificaram a nossa profissão.

Pensei nisso no velório de Fernando Pacheco Jordão quando me perguntaram o que ele representava para o jornalismo brasileiro.

Se apenas uma palavra fosse capaz de resumir a trajetória de um homem, no caso dele só pode ser esta: dignidade.

Em seus 80 anos de vida e 60 de jornalismo, meu amigo Jordão foi, acima de tudo, um homem de caráter, um profissional da maior competência, cidadão comprometido com seu tempo, sua terra e sua gente.

Nunca trabalhamos juntos na mesma redação, mas nos encontramos do mesmo lado em todos os palcos das longas batalhas pela redemocratização do país e da liberdade de imprensa.

Dele me lembro de estar sempre de bem com a vida, ao lado da sua inseparável Fátima, mesmo nos momentos mais difíceis, sem perder o humor meio britânico que trouxe da sua passagem pelo Serviço Brasileiro da BBC de Londres, onde foi parar em 1964, o ano do golpe.

Lá ele trabalhou ao lado do amigo Vladimir Herzog, seu ex-colega do Estadão e, na volta, em 1968, criou e dirigiu o jornalismo da TV Cultura (até ser demitido por motivos políticos, em 1974), onde seu corpo foi velado na quinta-feira.

Era diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo quando o amigo foi assassinado pela ditadura nos porões do DOI-CODI, em 1975, história que ele conta no livro "Dossiê Herzog _ Prisão, Tortura e Morte no Brasil".

Com passagem marcante pela TV Globo, onde trabalhou como editor do "Jornal Nacional" em São Paulo" e diretor do "Globo Repórter", foi demitido da emissora após a greve de jornalistas em 1979.

Ainda atuou como correspondente de revistas brasileiras na Europa e foi assessor de imprensa de Mario Covas e Geraldo Alckmin.

São-paulino militante, com a saúde fraquejada por dois AVCs, o primeiro há 15 anos, Jordão se manteve lúcido e atento até o fim, preocupado com os rumos do país e sem perder a chance de fazer uma brincadeira com os amigos.

Fernando Pacheco Jordão dá nome ao Prêmio Jovem Jornalista criado pelo Instituto Vladimir Herzog para manter viva a memória do seu exemplo, troféu já disputado por quase dois mil estudantes de todo o país.

"Não cabe usar verbos no passado para o Fernando, a quem temos de dizer um adeus pleno de comovida tristeza (...). Não queremos, não admitimos que ele se vá", escreveu o amigo Nemércio Nogueira, outra referência nobre do nosso jornalismo, na nota do Instituto Vladimir Herzog.

Valeu, meu caro Fernando Jordão.

Vida que segue.

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