Carroceiro O carroceiro e o ex presidente FHC: qual será o rumo?

Cena do carroceiro registrada no bairro dos Jardins, em São Paulo, na sexta-feira (Foto: Marco Raduan)

Estava vendo a cena do carroceiro subindo a rua, carregando a mulher, o cachorro e suas tralhas na caçamba, e fiquei pensando: para onde será que ele está indo, qual seu rumo, seu destino?

É mais ou menos como vejo o Brasil, ao final de mais uma semana de barata voa enlouquecida na política e de euforia na Bolsa de Valores, e me lembrei da entrevista de Fernando Henrique Cardoso ao jornal espanhol "El País" publicada na segunda-feira.

"Eu nunca vi uma crise assim, tão sem se perceber para onde vamos", admitiu o ex-presidente ao repórter Xosé Hermida, deixando claro que estava falando só em nome dele, não do seu partido. o PSDB.

Aos 86 anos, recém-completados, FHC disse que faz muitos anos não está na vida política e partidária e agora quer apenas analisar os fatos e "falar com independência".

Para responder se esta é a pior crise política que o Brasil já viveu, fez uma comparação com fatos históricos e chegou a uma conclusão desalentadora.

"Houve muitas crises sérias: o suicídio de Getúlio Vargas, o governo de João Goulart, o golpe militar, a campanha pelas Diretas Já. Não são novidade essas trepidações na nossa vida política. Qual é a grande diferença? No passado, você tinha o outro lado organizado para substituir. Agora não tem".

Na campanha das Diretas Já, de fato, havia um horizonte claro à frente: a redemocratização do país. Agora, que vivemos numa democracia, não temos perspectivas nem lideranças para comandar o processo de mudança.

FHC deve ter se lembrado de que na campanha das Diretas Já tinha a seu lado no palanque personagens como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Lula, Leonel Brizola, Franco Montoro, Barbosa Lima Sobrinho, Sobral Pinto, a sociedade civil em peso, de artistas a jogadores de futebol.

Hoje, quem o ex-presidente gostaria de ter a seu lado num imaginário palanque em defesa da democracia?

Na sequência do seu raciocínio da diferença que vê entre a atual crise e as anteriores, FHC constata que não vê alternativas.

"Não se sente que exista um outro lado com um projeto claro e que a população diga: `É por aqui que eu vou´. A população está desconfiando de tudo e todos, está afastada, não está acreditando em nenhum lado. É uma situação de crise grave".

Se o velho professor, que antes de ser político é sociólogo, um estudioso da realidade brasileira, não está vendo saída de nenhum lado, é porque a crise é mais profunda agora e nem a eleição presidencial marcada para daqui a um ano representa uma saída a curto prazo.

Não será, certamente, na nossa geração, como ele reconhece:

"Aqui não tem que ter só a mudança das instituições, da economia... mas da cultura, a nossa cultura não igualitária, não democrática, de privilégios. E isso custa muito mudar".

Por onde andará agora aquele carroceiro, o que ele diria sobre esta análise dolorosa do ex-presidente?

Vida que segue, mas para onde?

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