Em tempo (atualizado às 9h10 de 20.9):

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, deu por encerrada a polêmica criada pelo general Antonio Martins Mourão ao admitir a intervenção militar na crise. Em entrevista ao jornalista Pedro Bial exibida pela TV Globo na madrugada desta quarta-feira, disse o general:

"Esta questão está resolvida internamente. Punição não vai haver. A maneira como Mourão se expressou deu margem a interpretações amplas, mas ele inicia a fala dizendo que segue as diretrizes do comandante. E o comando segue as diretrizes de promover a estabilidade, baseada na legalidade e preservar a legitimidade das instituições".

Melhor assim.

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Calma, não há sinais de tropas, tanques e fuzis nas ruas.

Mais do que o ataque de um militar da ativa à democracia, o primeiro desde o fim da ditadura em 1985, assustadora foi a repercussão do discurso-bomba do general Antonio Hamilton Martins Mourão nas redes sociais _ em sua ampla maioria, comentários contra a classe política e em defesa da volta dos militares ao poder.

Veja o vídeo:


Apesar da discretíssima cobertura da imprensa, logo que o vídeo foi divulgado na noite de domingo, 48 horas após o seu pronunciamento numa loja maçônica de Brasília, admitindo uma intervenção militar, bombaram na internet manifestações de apoio ao general.

Acompanhem com seus próprios olhos na blogosfera o tiroteio contra as instituições para não pensarem que estou exagerando.

Minhas preocupações aumentaram com o silêncio das chamadas autoridades constituídas, que só soltaram uma nota oficial do Ministério da Defesa na tarde de segunda-feira para pedir explicações ao comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas.

Até o momento em que comecei a escrever este texto, não há notícia, porém, de nenhuma providência tomada contra a afronta do general Mourão, um sobrenome que me traz trágicas lembranças.

Também ninguém dava muita bola para as fanfarronices do general Olympio Mourão Filho (1900-1972), então comandante da 4ª Região Militar em Minas Gerais, que na manhã do dia 31 de março de 1964 disparou telefonemas para todo o Brasil, comunicando:

"Minhas tropas estão na rua!".

Como iria se aposentar em maio, aquele general trapalhão de capacete e cachimbo, que seus colegas de farda não levavam muito a sério, tinha pressa, enquanto seus superiores ainda discutiam as melhores estratégias.

E botou mesmo as tropas na rua, precipitando o golpe que afundou o país numa longa noite de 21 anos de ditadura. Naquela época, ainda não existia a internet e os telefones funcionavam muito mal, mas assim aconteceu.

Muitos anos mais tarde, ele contaria como tudo se deu em seu livro Memórias de um Revolucionário, no qual se autodenomina de "vaca fardada".

Fora a coincidência do sobrenome dos generais, claro que hoje são completamente diferentes as circunstâncias no país e no mundo, mas esta noite fui dormir preocupado com o silêncio dos democratas, mais do que com o barulho da guerra deflagrada nas redes sociais em apoio ao novo general Mourão.

Será que estamos perdendo a memória?

Vida que segue.

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