Surpresa é que não foi tudo o que aconteceu na greve geral de sexta-feira.

Para quem leu logo cedo pela manhã os dois jornalões de São Paulo, já estava tudo previsto pelos órgãos de segurança e informação do governo. Vamos relembrar.

Na Folha, sob o título "Alerta máximo", ficamos sabendo que:

"A equipe de inteligência do governo federal identificou risco de participação de black blocs nos atos da greve geral desta sexta (28) em ao menos cinco capitais: São Paulo, Rio, Brasília, Porto Alegre e Fortaleza. As equipes de segurança locais foram avisadas e o Planalto já trabalha com a possibilidade de haver conflito. Auxiliares do presidente Michel Temer dizem que houve uma radicalização no discurso de convocação para as manifestações após a aprovação da reforma trabalhista."

No Estadão, sob o título "Governo federal teme radicalização", a notícia era praticamente a mesma:

"Informações ontem eram de que manifestações teriam presença de black blocs; tentativa seria de provocar imagens de caos logo cedo _ O governo federal identificou que black blocs devem se infiltrar em manifestações programadas para esta sexta-feira contra as reformas da Previdência e trabalhista. Além disso, o Palácio do Planalto recebeu informações de que logo cedo haverá problemas no transporte público nas principais capitais e vias de acesso a aeroportos podem ser bloqueadas".

Neste sábado, as manchetes sobre a greve geral nos dois jornais, praticamente idênticas, confirmaram as previsões feitas na véspera.

Folha: "Greve atinge transportes e escolas em dia de confronto".

Estadão: "Greve afeta transporte e comércio e termina com atos de vandalismo".

E o que foi feito para prevenir e evitar que isto acontecesse?

Como previsto, imagens de violência dominaram a cobertura da greve durante todo o dia, e chegaram ao auge no final da tarde, quando os black blocs entraram em cena para valer no Rio e em São Paulo, quebrando e botando fogo em tudo que encontravam pela frente.

A serviço de quem estava esse bando de celerados sem causa, que apareceu pela primeira vez nos protestos contra o aumento de tarifas, em 2013, vandalizou nas manifestações pró e contra o impeachment nos anos seguintes, e subitamente tinha desaparecido?

Que providências foram tomadas pelas equipes de segurança locais e federais para conter a ação destas quadrilhas de black blocs, já tão conhecidas de outros carnavais?

Será que não deu tempo de montar um esquema especial de segurança, pelo menos em torno da casa paulistana do presidente Michel Temer, no Alto de Pinheiros, um alvo óbvio em todas as manifestações contra o governo?

Em São Paulo, a manifestação dos trabalhadores em greve no Largo da Batata, em Pinheiros, foi pacífica até as 19h30, quando dezenas de black blocs mascarados começaram a depredar lojas e agências bancárias na avenida Faria Lima, e seguiram em frente rumo à casa de Temer, onde houve um longo confronto com a polícia.

No Rio, houve registro de atos de violência durante o dia, mas o caos só tomou conta do centro histórico da cidade, onde oito ônibus foram incendiados, depois das quatro e meia da tarde, porque a tropa de choque demorou para enfrentar os baderneiros, que revidaram com pedras.

Relata a cobertura da Folha: "Em meio a explosões, grupos que defendiam protesto pacífico bateram boca com manifestantes radicais, que faziam barricadas de fogo em latões de lixo na Cinelândia".

Como não se tem notícia da criação de um Sindicato de Ativistas Adeptos da Tática Black Bloc (SAATBB), as nove centrais reunidas pela primeira vez na organização de uma greve geral devem se prevenir nas próximas manifestações, assim como os órgãos de segurança, para não serem responsabilizadas por possíveis vítimas.

É isso que parecem estar procurando os que ainda não aprenderam a conviver num regime democrático em que deve imperar o Estado de Direito. A quem interessa a vitória dos black blocs?

Os próximos passos dos que se opõem as reformas do governo já estão definidos: nas manifestações programadas para o feriado de segunda-feira, Dia do Trabalhador, as centrais sindicais pretendem fazer uma convocação aos seus filiados para o movimento "ocupar Brasília", no dia da votação da reforma da Previdência.

Como a votação final não tem data marcada e, tudo indica, deve demorar, porque o governo ainda não tem os votos necessários, dá tempo de se preparar para evitar novos confrontos com os black blocs.

Vida que segue.

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