Outro dia, diante da multiplicação das denúncias de casos de corrupção em todas as áreas da vida nacional, eu me perguntava aqui: o que falta ainda?

Nesta sexta-feira, ficamos sabendo que a corrupção da carne podre chegou à mesa do brasileiro.

Nada poderia sintetizar melhor o conluio criminoso entre agentes públicos, partidos políticos e grandes conglomerados econômicos.

Indicações de fiscais federais de inspeção eram feitas muitas vezes pelas próprias empresas interessadas, com a prestimosa ajuda de parlamentares por elas financiados nas campanhas eleitorais.

Em troca de propinas, 33 fiscais do Ministério da Agricultura liberavam estoques de produtos imprestáveis para o consumo e forneciam certificados sanitários adulterados.

É disso que trata, em resumo, a Operação Carne Fraca (ver cobertura completa aqui no R7) desencadeada por 1.100 agentes da Polícia Federal, que investigaram 32 empresas, entre elas as duas maiores do país, a JBS e a BRF (Sadia e Perdigão).

As duas empresas juntas distribuíram R$ 384,9 milhões em doações oficiais, sem falar em Caixa 2, durante a eleição de 2014.

A maior doadora individual foi a JBS, dona das marcas Friboi, Seara e Big Frango, entre outras, que entrou com R$ 366,8 milhões rateados entre 25 partidos.

Segundo o delegado Maurício Moscardi Grillo, entre os partidos envolvidos no esquema investigado pela Operação Carne Fraca estão o PMDB e o PP.

O deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR), recentemente nomeado para o Ministério da Justiça, aparece numa gravação em que chama o fiscal Daniel Gonçalves Filho, suposto líder do esquema, de "grande chefe", ao intervir a favor de um frigorífico.

Por não encontrar "indícios de ilegalidade", porém, a PF resolveu não incluir o ministro nas investigações.

Para se ter uma ideia do estrago provocado por esta organização criminosa na mesa do consumidor brasileiro e na economia nacional, basta lembrar que o Brasil é o maior produtor mundial de carne bovina e de frango, área responsável por 7,2% das nossas exportações (US$ 11,6 bilhões em 2016).

Produtos vencidos eram tratados com ácido sórbico (produto que pode causar câncer) e chegavam até a merenda escolar.

"Inúmeras crianças de escolas públicas estaduais do Paraná estão se alimentando de merendas compostas por produtos estragados", alertou o delegado Moscardi Grillo em sua denúncia.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, do PP, um dos partidos que apareceu envolvido no esquema, correu para estancar os prejuízos: "Esse é um assunto que não é só de polícia. É muito grave para o país, com riscos de imagem e de perda de mercado".

Ainda neste final de semana o ministro pretende falar com o adido comercial da União Européia e embaixadas dos países importadores.

As empresas denunciadas apressaram-se em divulgar notas oficiais e anúncios para negar irregularidades e garantir que cumprem todas as normas, exatamente como fazem os partidos e os políticos denunciados na Lava-Jato.

Vida que segue, mas muito cuidado: a corrupção agora pode matar pela boca.

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