16730313 1420850671289608 2501620099459480888 n Chope com política: fio de esperança na mesa de bar

Muitos ali não se conheciam, mas já tinham ouvido falar um do outro.

Foram convidados pessoalmente pelo dono do Bar do Alemão, na Água Branca, o compositor Eduardo Gudin, não para ouvir a boa música ao vivo de sempre, mas para um sarau diferente: discutir os rumos do país.

O tema proposto para a noite desta quarta-feira, bem na hora do jogo do meu time, era deveras indigesto: reforma política.

Faz tempo que não participo de debates, seminários, palestras e eventos do gênero pelo simples e bom motivo de que não tenho mais nada a dizer e ando sem paciência para ouvir sempre a mesma lenga-lenga sobre os motivos desta crise sem fim.

Por alguma razão que desconheço, além do bom chope ali servido, desta vez me deu vontade de ir só para ver do que se tratava.

Era o segundo encontro deste grupo variado que se formou no final do ano passado por iniciativa de Gudin e do jornalista Luis Nassif, também músico, uma espécie de mestre de cerimonias da noitada de chope com política, passando a bola para cada um falar da sua área.

Saí de lá feliz, mais animado com a vida do que quando cheguei.

Pelo menos, pensei, as pessoas voltaram a conversar sobre o nosso destino comum, sem agressões nem intolerâncias em busca de culpados, mas apenas pensando saídas possíveis para este brejão em que nos metemos.

Profissionais liberais, políticos com e sem mandato, jornalistas, músicos profissionais e amadores e boêmios em geral estavam todos ali para falar e, principalmente, ouvir os outros.

Na mesa em que estava, para minha sorte, sentaram-se o lendário Tobias da Vai-Vai, eterno comandante da escola de samba mais popular da cidade, e o advogado Antonio Funari Filho, bravo militante dos direitos humanos e meu colega de Comissão de Justiça e Paz.

Faz muito tempo não falava com Tobias, desde os tempos em que trabalhava na cobertura de Carnaval do Estadão, muitas décadas passadas.

"Nós temos passado, vivemos o presente, mas não temos futuro", foi logo me dizendo, enquanto pedia, para meu espanto, um refrigerante zero. E emendou: "Sinto que não temos mais perspectivas, esperanças de que alguma coisa mude. Ninguém mais sabe o que fazer, o que vai acontecer".

Constatar esta realidade não resolve nossos problemas imediatos, mas já é um primeiro passo, melhor do que ficar em casa acompanhando o massacrante noticiário online.

Como os outros, Tobias não tinha soluções mágicas para apresentar, grandes propostas, mas estava ali muito compenetrado ouvindo todo mundo falar na necessidade não só da reforma política, mas de todas as outras, como se a nossa casa comum tivesse caído e era preciso construir tudo de novo.

Para aquela galera, o ponto comum é a necessidade de investirmos todos os nossos recursos e energias em Educação, algo que não dá resultados a curto prazo, mas é preciso um dia começar.

Ao contrário das minhas frustrantes experiências anteriores em participar de eventos sobre a "conjuntura nacional", desta vez ninguém fulanizou a discussão, jogando as culpas uns nos outros pela grande tragédia nacional.

Com leveza e sem ninguém querer ser dono da verdade, falamos de tudo, mostrando que alguma coisa nova está acontecendo, sem que a gente perceba, nos mil grupos deste tipo que estão se espalhando por toda parte, ainda anônimos.

Lembrei-me dos tempos da ditadura em que eu e mais meia dúzia de jornalistas viajávamos nos fins de semana pelo interior para participar de debates em sindicatos, igrejas e universidades, levando informações que não estavam nos jornais censurados.

Hoje, como disse outro dia o Luiz Fernando Veríssimo, e eu reproduzi aqui, podemos falar e escrever de tudo, temos plena liberdade, mas não adianta nada. Não muda nada.

De manhã, depois de ler a quantidade de bobagens ditas num só dia por Michel Temer, Osmar Serraglio, Aécio Neves e até meu velho amigo Chico Alencar, larguei o jornal de lado e vim escrever sobre a noite no bar, que pelo menos me devolveu um fio de esperança.

Já quase no final do chope com política, quando o Nassif me chamou para falar alguma coisa otimista, achei melhor abrir mão da palavra porque é covardia falar depois do sábio Tobias, que resumiu tudo em poucas palavras.

Pedi um tempo para pensar antes de falar qualquer coisa, até porque a única coisa capaz de me devolver algum otimismo foi ter testemunhado este sarau, desta vez sem samba nem choro, da dupla Gudin & Nassif, que não desiste nunca.

O que tinha a dizer está escrito aqui. Apesar de tudo, estamos aí, só fica velho quem tá vivo e nós ainda temos, sim, o que dizer.

A tal da sociedade civil que se mobilizou na luta pela redemocratização do país e desaguou na Campanha das Diretas, em 1984, também começou assim, de mansinho, multiplicando-se pelas beiradas.

Por falar nisso, por onde anda a nossa sociedade civil?

Vida que segue.

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